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"Canto Solitário e Triste"
à Memória de Medgar Evers

                                                                                                     (Líder negro assassinado traiçoeiramente, em sua luta
                                                                                             contra a segregação racial nos Estados Unidos)


A maldade e a covardia caminham de mãos dadas
sobre a tua memória.

Os versos vertebrados de Langsthon Hughes
(Ó soturnas e graves badaladas!)
antecipavam tua sorte
e descreviam tua história.

Colheu-te a morte, megera branca,
- noiva do nada,
sem ter coragem de olhar-te a face
transfigurada.

Nos campos de Springfield os restos de Lincoln,
teu velho Presidente, - o que caiu por teu amor,-
sofreram como as raízes que no âmago da terra
sofrem, quando o tronco recebe os golpes do lenhador.


Tombaste, tal como Lincoln,
o velho Presidente,
e sobre o solo, teu sangue rubro
é essa bandeira, cor da revolta,
que segue à frente!

E agora, feito luz
que se liberta e irradia,
- diáfano, sem cor,
chegaste à verdadeira Democracia
que é o Reino do Senhor!

Irmão negro que caíste à traição
vítima do Caim-branco norte-americano
na mais nefanda guerra,
guarda este canto, - misto de hino e de prece,-
que de meu peito fugiu,

- canto de um poeta nascido em outra terra
feliz e orgulhosa de ser mestiça,
onde os homens brancos, negros, amarelos,
são todos Brasil!

Guarda este canto em tua memória
de um poeta teu irmão que hoje queria apenas
a glória
de poder ser negro como tu,
ao menos um minuto,
para, por tua morte e pela espécie humana,
pôr-se também de luto!


(Poesia de J.G.  de Araújo Jorge, extraída
do livro " Mensagem" - 1966)



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