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" Sonetos para
Maria Helena "
J. G. de Araujo Jorge
Tu que por crenças vãs a Vida arrasas
e ante o espelho não queres ver quem és,
que imagines viver abrindo as asas
e to esqueces de andar com os próprios pés...
Que transformas o Sonho num revés
mesmo a acender o fogo em que to abrasas,
e te algemas as mãos - as mãos escravas
como as dos prisioneiros das gales.
Tu que enganas a falar de alturas
com as palavras mais belas e mais puras
e te imolas num gesto superior,
não percebes nessa ânsia de suicida
que nada há enfim mais alto do que a Vida
quando a erguemos num brinde _ ébrios de amor!
II
Que importa o sangue quente se a alma a fria?
Que importa haja no peito um coração,
se a vida sem amor, sem alegria,
sabe a clausura triste, a solidão?
Que importa exista o sol se não há dia,
se a noite é cega, e é densa a escuridão?
Que importa ser raiz na terra fria
se o ramo oscila nu, sem um botão?
Que importa a inquietação, a ânsia contida
se nao chegamos a colher a vide,
se a vivemos sem ser, no singular.
Que importa esse alto sonho que a alma expande
se sem a Vida não há sonho grande
nem vale a pena se poder sonhar!
(- Maria Helena: Poetisa portuguesa, com quem
JG publicou em 1961 dois livros:
"Concerto a 4 Mãos" e " De Mãos Dadas".)
( Poema de JG de Araujo Jorge do
livro
" De Mãos Dadas " 1a edição 1961.)
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