*****************************************

 "
Cântico da Vitalidade Plena  " (M.H.)
                                                                  ( Resposta de  Maria Helena  
                                                                                            ao   poema "Perdido" de  J. G.  )


E além de tudo, Ser!
Sem pensar nos tormentos já vividos,
No sangue mudo na prisão das veias.
Com os braços erguidos
Ou de pulsos pesados de cadeias.
Ser com fé, com ardor, com permanência,
Numa vontade forte:
Para cá da verdade da existência
E para além da incógnita da Morte.
Ser no grito de maldição ou troça
E no silêncio confidente;
Na lágrima chorada que é só nossa
E no sorriso que é de toda a gente.

Além de tudo, Ser!   
Sem nada que nos dome   
Ou entre reis ou entre a plebe,   
Com o pão que se come   
E o vinho que se bebe.   
Além de tudo, Ser!
Sem prenúncios de guerra ou mau agoiro,
Sem promessas banais e de sentidos falsos:
Com o Sol a vestir-nos a alma toda de oiro
E com os pés descalços.
Mas Ser! Além de tudo, Ser
Entre a côr espinhosa das roseiras
De qualquer roseiral;
Na fúria vertical das cachoeiras.
Nas lagoas de calma horizontal.
Ser na curva das asas dos pardais
E na traição de todos os venenos;
Ser com beijos a mais
Ou com beijos a menos.

Além de tudo, Ser!
Num uivo de terror, em qualquer carme
Na explosão de som, na terra realizada.
Ser chicote que retalha a carne
E no sangue da carne retalhada.
Além de tudo, Ser!
Nas asas fora já do aconchego dos ninhos
Sem que receio algum possa detê-las;
No humilde pó de todos os caminhos,
Na altiva luz de todas as Estrelas
Além de tudo, Ser!    

Ser nas águas do mar, na frescura do pomo
Na manhã, no luar, no entardecer.
Ser por Ser! Sem fraquezas! Num assomo
Ser não importa como,
Mas não deixar de Ser!!!

  
( Poesia de Maria Helena- extraído do livro
JG de Araujo Jorge " De Mãos Dadas" -  1961)



*****************************************


Home