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"
Era Eu "
                                             Maria Helena


Em momentos de risos ou de abrolhos,
Todos os dias, nestes ou naqueles,
Que a hora fosse feia ou fosse linda,
Eu te dei toda a luz que havia neles
- Que é mais ainda.

Quando tu me prendias pela haste
Num movimento agreste
E humanamente louco,
Se nunca me beijaste,
Dei-te o sonho do beijo que não deste,
E não dei pouco.
Se em minutos convulsos, quase vãos,
- Mas que a saudade touca -
Tua boca beijava minhas mãos,
As minhas mãos beijaram a tua boca.
Na fogueira que de ambos se extravasa
Em rajadas de cor,
Tu sempre foste a brasa
Mas eu era o calor.
Se voávamos os dois, pelas distâncias nuas,
Num jeito que inda agora  abençôo
E na luz moribunda das tardinhas,
Talvez as asas fossem tuas
Mas era meu o ímpeto do vôo
E as penas eram minhas.

Inda que fosse Inverno,
Nesse jardim de amor
De lírico matiz,
Eu era o aroma eterno
Da flor
Da qual tu eras a raiz .
Pensa como me dói a tua aleivosia
Que apenas se resume
Ao fel que no teu peito se insinua:
Se te dei tudo quanto em mim havia
De luz, de sonho, de alma e de perfume,
Como é que não fui tua?



(Resposta de Maria Helena  ao Poema de
JG de Araujo Jorge  do livro
" De Mãos Dadas" 1a edição1961.)


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