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" Concerto "
Maria Helena
Sim, grande Amor: quando eu chegar, em qualquer dia,
Com os meus braços em humano excesso,
Na mais estranha e louca sinfonia,
Os "metais" gritarão toda a alegria
Do meu regresso...
E as asas voarão pelos Espaços
Libertas já do ergástulo dos ninhos.
E venceremos zangas e embaraços
E o ritmos voltará aos nossos passos
Na escala dos caminhos
Sim, grande Amor! os dois temos de cor
As claves, os bemóis, o contraponto...
E enquanto nos amamos, em redor
As "cordas" tocarão em tom maior
Os acordes sensuais do nosso encontro.
Envoltos já em musicais fragrâncias,
Pedindo à Vida o que ela tem de bom.
Chegada das mais íntimas distâncias,
A harmonia será sem dissonâncias
E sem mudar de tom.
E numa pausa de fulgor preciso
- Sem acidentes maus ou atropelos -
Vivendo em pleno Paraíso,
Tu acharás timbales no meu riso
E verás cordas de harpa em meus cabelos.
Ao compasso do nosso coração
Todo ele aberto em flor, coo os jardins,
Nosso beijo será uma canção
- Longo como uma nota em suspensão
Vermelho coo a alma dos clarins.
Nossas horas sozinhas
Hão de fugir ao desbarato,
Quando - viris como as gavinhas -
As tuas mãos prenderem bem as minhas
Num andamento "appassionato".
Sim, grande Amor! Meus dedos nus
Hão de vencer as noites e abatê-las.
Quando, deposta a treva e a cruz,
O meu olhar cantar em síncopes de luz
A eterna melodia das Estrelas.
E ao "final", como um canto de magia,
Seremos nós, das folhas à raíz.
E será tão perfeita a sinfonia.
Que o próprio Deus que fez a noite e o dia,
Dos Céus distantes, há de gritar "Bis!"
(Resposta de Maria Helena ao Poema
" Intervalo " de
JG de Araujo Jorge do livro
" De Mãos Dadas" 1a edição1961.)
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