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" Zero "


Neste momento, eu nada devia dizer, sinto que a palavra
virá amarga e sem anseio.

Está certo que vou melhorando, estou vendo a minha sala
o bar de espelhos oferecendo doses de esquecimento.
Talvez que se acedesse ao seu apelo
a palavra viesse leve e sinfonada, como um uísque com soda.

Mas estou sentado aqui, e neste momento
não compreendo nada,
não sei porque tanto esforço e tanto trabalho,
para que tapete no chão, quadro na parede, vitrola recheada
de música.

Sinto-me assim, de repente, como um marinheiro no bar
do centésimo porto
quando surge a terrível interrogação:
afinal, qual a diferença entre o mar e a terra?
qual a diferença entre o convés e o bar?

Estranho este momento, em que oscilamos numa corda
sobre o abismo
como se seguíssemos por um largo caminho monótono,
sem a vertigem da altura que tanto nos perseguiu.



( Poema de JG de Araujo Jorge  extraído
do livro " Harpa Submersa " 1a ed. 1952 )


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