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" Trovas de Amor "
Na despedida, com pressa,
escrever me prometeste. . .
Esqueceste da promessa
ou apenas me esqueceste?
Por ironia maior
sorriste do meu desgosto,
e sepultaste este amor
nas covinhas do teu rosto...
No carnaval de verdade
da Vida, nao tenho nada . . .
Quem dera a Felicidade
nem que fosse mascarada . . .
Fui tudo para este amor
belo, puro, cruel, devasso,
- fui Pirata, fui Pierrot,
fui Arlequim, fui Palhaço . . .
Amor que pintou o sete
e em Carnaval se resume . . .
Foram meus beijos: confeti!
Seus beijos: lama-perfume...
Trata-me apenas por tu
se estamos juntos e a sós . . .
Não ponhas este "senhor"
tão importuno entre nos . . .
Definir a eternidade
é fácil, já a defini. . .
É o instante de saudade
que eu vivo longe de ti...
Tu de Escrava, eu de Senhor,
- eis as nossas fantasias...
E eu, o escravo deste amor
fui seu Senhor alguns dias...
Amor que tudo promete
falso amor das Colombinas . . .
Beijos mais beijos: confeti!
Baraços de serpentinas...
Fantasia eu próprio sou
e há um contraste dentro em mim:
- carrego um velho Pierrot
num atrevido Arlequim . . .
O Maria, concebida
para ser o meu pecado . . .
Nos teus braços, minha vida
é um barco desarvorado . . .
A essa Maria que passa
minha oração já compus:
- Maria cheia de graça !
- Maria cheia de luz!
Dosado, o ciúme é o tempero
que a afeição da mais sabor,
mas se chega ao exagero
é o pior veneno do amor!
Deus pôs no céu três Marias
na mesma constelação,
e na noite de meus dias
mais três, no meu coração.. .
Eis como defino o ciúme
que tanto nos faz sofrer:
- corte de arma cujo game
corta fino... e fica a arder...
Que nao houve antes de mim
outro qualquer me garantes,
mas se amas tão bem assim
como saber o que houve antes?
Este amor nunca se apaga,
é chama que me incendeia,
é espuma a florir na vaga,
é vaga a brincar na areia...
Explica-me tu, querida,
este absurdo, por favor:
- Ser Senhor da tua vida
e escravo do teu amor?!
São céus e abismos profundos
nem eu posso descreve-los:
mergulho em teus olhos fundos
e me afogo em tens cabelos!
Não há remédio: estou doente!
É doença este amor por ti . . .
Não to esqueço, e justamente
por pensar que te esqueci...
Louco de amor, te busquei,
e ao te encontrar, percebi,
- que não fui eu que to achei,
eu, sim . . . é que me perdi . . .
Moeda de estranho valor
que o coração faz cunhar,
quanto mais se gasta, o amor,
mais se tem para gastar . . .
Esquece, amor, meus pecados,
tu me disseste a sorrir,
se nos meus olhos cerrados
só tu me podes possuir . . .
Disto, a ninguém deu a palma:
- eu te conheço melhor . . .
Desnudei-te o corpo, a alma,
sei-te, inteirinha, de cor . . .
Antes verdade isto fosse
dizer que não penso em ti...
Mas basta ver-te, e acabou-se!
Me esqueço que te esqueci...
Louco, aumento esta saudade
aqui, sozinho, a sofrer,
só pra poder ter vontade
de voltar para te ver...
Como que tonta, indecisa,
presa aos bicos dos teus seios,
a tua própria camisa
parece que tem receios . . .
Como o quadro na moldura
como a rosa no botão,
em Deus na criatura
- estas no meu coração.
Rosas tolas, tão vaidosas,
que em belas hastes vicejam...
Vem amor, olha estas rosas,
quero que as rosas to vejam...
Que há de ser esse teu nome
que repito sem querer?
- Substantivo, Pronome,
ou Verbo do meu viver?
Se me amas com tal ardor
e te dizes amadora,
com certeza, meu amor,
já nasceste professora...
E eis a suprema ironia
ao meu coração ferido:
- tu foste trair-me um dia,
mas com quem? . . . com teu marido !
Ontem, de amor tu morrias,
e agora, te sentes farta . . .
A saudade que sentias
só mata no fim de carta . . .
Em contrição te contemplo
deusa a quem vou adorar:
- meu coração é o teu templo;
meu amor, o teu altar!
Quis tornar-me um trovador
para dizer que ela é minha,
mas tudo em vao, - meu amor
não coube numa quadrinha.
Quem espera, desespera . . .
Quem espera, sempre alcança . . .
- Ah, meu amor, quem me dera
esperar... tendo esperança!
Vossos olhos são tão verdes
de um verde-mar furta-cor,
que afinal, por me perderdes
fiquei perdido de amor.
Resta um consolo: pensar
no amor que juntos colhemos . . .
Nem Deus nos pode tirar
aquilo que já vivemos!
Marias que não tem fim ...
. . . das Dores, do Ó, do Socorro . . .
A que diz morrer por mim
e a Maria por quem morro . . .
Eis uma flor que em meu peito
mudou de espécie, em verdade:
era amor... Amor-perfeito,
e acabou sendo Saudade...
O trovador! Professor
de poesia popular!
Com suas trovas de amor
o povo aprende a cantar!
Sejam de amor ou saudade
de tristeza ou de alegria,
as trovas são na verdade
o ABC da poesia!
Ó meu amor, por quem choro
louco e cego de desejo...
Quanto mais louco, te adoro!
Quanto mais cego, te vejo !
Ah, saudade! Se te pego
me vingo sem compaixão !
Dou-te esta dor que carrego
sozinho no coração!
Vi teu retrato . . . Revivo
um velho amor que foi meu . . .
A saudade é um negativo
de foto, que se perdeu . . .
Foi um amor de verdade,
sei agora, ao ver a flor,
- pois esta flor - a saudade -
só nasce em cova de amor . . .
Teus seios são luas cheias
são ondas de um doce mar,
parecem feitos de areias
nas noites brancas de luar...
Longe o amor, quem pode amar?
Tudo é inquietude, aflição . . .
A saudade e a falta de ar
asfixiando o coração . . .
Maria Clara, Maria dos Anjos, da Conceigao... E aquela que eu chamaria Maria do coragao. .
.
Por duas Maria erra
meu viver de déo em déo . . .
A que me perde, na terra,
a que me salva, no céu. . .
Ha tantas Marias, tantas,
que quantas há eu nem sei. . .
Sei que há belas, feias, santas, . . .
...e a Maria que eu amei. . .
Ó Marias . . . Repetidas
simbolizais a mulher,
se há sempre nas nossas vidas
uma Maria qualquer . . .
Deslumbrada, com certeza,
a tua própria camisa
ao descobrir-to a beleza
para um momento, indecisa . . .
A camisa, - quem diria?
parece que também sente,
e ao descer, te acaricia
em dobras, bem lentamente . . .
Belos e cheios, marcados
por teu decote adivinho
teus seios aconchegados
como dois pombos num ninho . . .
Teus seios nus me entontecem
se os tento em vão dominar. . .
- São como o vento!... a eles crescem!
- São como as ondas do mar!
No peito dos marinheiros
nasceu, cresceu, emigrou...
Mas nos porões dos "negreiros"
foi que a saudade. . . chorou!
"Matar saudades..." querida
é uma expressão tão somente,
pois em verdade, na vida,
saudade é que mata a gente...
Sempre fiel e verdadeira
vigia da nossa dor,
saudade! companheira
dos solitários do amor...
Misto de pranto e alegria,
sol e chuva, sonho e dor,
a saudade é o sol num dia
de chuva, - no nosso amor...
Meu "terço" feito de trovas
que em versos fico a compor,
com ele "rezo" e dou provas
de meu culto ao teu amor...
( Poema de JG de Araujo Jorge extraído
do livro " Harpa Submersa " 1a ed. 1952 )
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