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"Tragédia"
Deveríamos ter dito - há quantos anos?
- agora que nos amamos, podemos separar-nos
para que subsista o amor.
Mas não poderíamos adivinhar que fracionaríamos o amor
toda vez que nossas mãos se encontrassem,
e que o mutilaríamos, ao juntar nossas bocas,
e realmente o abateríamos a pouco e pouco, a cada síncope de prazer
no delírio da posse.
Deveríamos ter dito um ao outro - há quantos anos?
- agora que encontramos o amor, permaneçamos em solidão
anjos da guarda de nosso sonho -
e que ninguém o toque, nem nós mesmos, pois nossos desejos perdulários
e nossas ânsias dionisíacas
o levarão à perdição.
Tivemos um Paraíso - há quantos anos?
Hoje caminhamos indecisos, com um gosto amargo nos lábios,
- acidulou-se o fruto que era mel -
E a solução talvez seja um canto e um balaio gregos
em que o amor será uma oferenda, imolado
aos deuses
por nossas próprias mãos!
(Poema de J.G. de Araujo Jorge extraído
do livro Harpa Submersa - 1952)
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