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" Resina "
Hoje acordei incivilizado, e escreveria um poema reacionário
contra as máquinas e contra o progresso.
Nesta manhã dourada de setembro, enquanto o ônibus me leva,
vejo apenas as árvores que correm como crianças à minha passagem,
e o céu, coo um sonho adolescente, sem manchas de desejos.
Estes estranhos animais que me cercam, a que bufam,
e que fazem estranhos ruídos,
perturbam a serenidade do meu coração,
que hoje sinto, como uma orquídea pendurada no alto ramo,
na entre-sombra luminosa da mata exalando o perfume
da noite que se evolou.
Hoje, meus ouvidos compreenderiam o canto dos pássaros,
adivinhariam a linguagem instintiva
dos animais felizes que nunca atingirão a consciência
da vida e da morte.
Meus olhos quedariam deslumbrados diante do tronco
que um raio de sol transformou numa palheta de verdes imprevistos,
quedariam encantados diante da mesma água imemorial,
a me surpreender sempre com a sua pureza
que as pedras e a terra não perturbam.
Desejaria encontrar-me em colóquio com as coisas
e tenho a vaga impressão
o pressentimento estranho,
de que hoje, seria capaz de desvendar o mistério,
e penetrar com a minha ignorância o segredo da beleza
inacessível a toda ciência.
Hoje me sinto assim, descoberto, como o cerne
de um madeiro exposto ao sol
intempestivamente,
pelo gume do machado que o abateu na floresta,
e esta resina que escorre, silenciosa a hialina
é a poesia surpreendida em sua sombra e em sua força
extravasando o coração da terra.
( Poema de JG de Araujo Jorge extraído
do livro " Harpa Submersa " 1a ed. 1952 )
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