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" Canto do Amor sem Tempo "

                        "Porque nunca te estreitei contra mim
   é que nunca te afastas."

                                                                       
    (Apontamentos de Malte Laurids Brigge.
                                                                                                            Rainer Maria Rilke.)



Cresces no pensamento quanto mais te afastas,
nunca te afastas, nunca, se afinal ressurges
em cada vivo instante - ó flor sem estações,
numa árvore que tem mil profundas raízes!

Para mim, és aquela intangível presença
que construí com o meu louco desejo impossível.
Se não posso tocar-te, hás de acenar-me sempre:
loura estrela que a mão não apaga dos olhos.

Mais alem do desejo - essa fera em tocaia -,
da ternura - esse dote veneno que embriaga -,
paira o amor, e eis o amor, longe de nossas forças,
fruto de ouro da lenda que criamos juntos.

Ah! pudesse eu tocar-te e talvez esboroasses
como um gesto de areia ao abraço das vagas...
Ah! pudesses ser minha, e talvez percebesses
que então, já nunca mais poderias ser minha!

Ah! o amor, como nós o afastamos, no instante
em que julgamos, tontos, loucos, celebrá-lo.
Só depois que o possuímos é que compreendemos
que possui-lo é afinal parti-lo e mutila-lo.

Quem diria? A conquista é o "requiem" do amor,
e o que devera ser eterno e indivisível,
vai sendo mutilado toda vez que um golpe
de prazer, fere e atinge a substancia do sonho.

Só - como estas, assim, estou sempre ao teu lado,
sempre comigo estas -, assim só, como estou.
Que faríamos nós para salvar o amor
se eu pudesse planta-lo em teu corpo, a enraizar-me?

Ah! os braços são alças do esquife imprevisto,
colhem flor sem raiz, colhem astros sem céu.
o meu amor, só tu cintilas em meu sonho
porque enquanto me buscas eu jamais to alcanço!

O destino do eterno atraiçoou nossos planos.
Nossa conspiração frustrada nos endeusa.
E esse amor, que eu quisera estrangular de beijos
sobe como uma chama angelizada no ar!


( Poema de JG de Araujo Jorge  extraído
do livro " Harpa Submersa " 1a ed. 1952 )


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