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" Canção Triste "



Vivemos novamente como dois seres cerimoniosos
quando chego me beijas como a uma amiga na rua,
não te despes na minha frente, tão diferente daquele tempo
em que a tinha em meus braços despudorada e nua...

E um arrepio ainda estremece os meus desejos lassos...
Muitas vezes me pergunto: então isto é o amor?
Quero ser o que fui, prometo que te tomarei nos braços
que te enlouquecerei como antigamente, sem nenhum pudor...

Ao tentar entretanto, percebo o vão desejo,
reconheço que há uma ternura entre o vago e o fastio,
mas não consigo vencer esta estranha distância
e ir além das minhas forças, ressuscitar essa ânsia...

Às vezes penso, em desespero, que talvez se fugíssemos
não sei pra onde, mas pra longe, entre sombras e muros,
se pudesse ser de novo a fresca e imprevista flor,
talvez nos reencontrássemos mais forte e mais puros
e no grande isolamento ressuscitássemos o amor...

Que fazer, meu amor ? Há de soar diferente de outros tempos
minha voz a te repetir: - que fazer, meu amor ?
Sinto que levo nos braços por desesperado caminho
um sonho que em vão floriu e em vão frutificou!

Tu sabes bem que ainda te amo, e eu percebo que me amas,
qualquer coisa ainda há, talvez, para salvar o amor,   
não vamos deixá-lo assim abandonado em meus braços
em meus braços pesados de angústia e de amargor . . .


Talvez ainda viajemos juntos, ainda nos encontremos
para as nossas emoções, se somos jovens e há tempo...
Aterroriza-me pensar que se o deixarmos morrer
seremos também arrastados para a desolação irremediável
e nada restara de nós, quando a última onda o envolver!


( Poema de JG de Araujo Jorge  extraído
do livro " Harpa Submersa " 1a ed. 1952 )


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