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" Cadeira de Rodas "



Tenho enganado o destino
e traído minha vida
deixando-me ficar – como estou –
nesta cadeira de rodas do meu tédio...

Quanta aventura, quanto sonho   
frutificando em vão,   
quanto amor à espera,
para ser colhido   
e eu a morrer aos poucos            
enraizado a esquecido. . .            
       
Tantos que se vão, sem adeuses
sem nada,
apenas com o seu coração,   
com a coragem de romper cabos   
e amarras   
pela simples alegria de partir. . .
         
Tantos que um dia se libertam afinal       
sem olhar para trás
sem pensar em voltar,
e se perdem, e se encontram,
e renascem das cinzas do que foram
com as mãos cheias de frutos

Oh! a coragem de partir para não morrer
emparedado!
- atirar-se ao mar, como aqueles velhos navegadores
que adivinhavam terras que ninguém sabia
e enfrentavam o mar - o monstro misterioso –
como loucos pigmeus . . .

Oh! a coragem de largar o velho porto onde o casco
se enche de algas e ferrugem,
nem que seja apenas
pelo prazer dos ventos livres
o balanço das vagas encapeladas
a expectativa de paisagens irreveladas.

A coragem de conquistar a vida que se esconde
atrás dos horizontes
que palpita e atrai como uma estrela fugidia,
e que chega, quente e viva, quando a colhemos
sazonada pela emoção da morte que amadureceu
em suas imprevisíveis searas.

Tenho enganado meu destino
deixando-me ficar
paralítico, sem remédio,
nesta cadeira de rodas do meu tédio . . .


( Poema de JG de Araujo Jorge  extraído
do livro " Harpa Submersa " 1a ed. 1952 )


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