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 " Solilóquio Depois "



O meu castigo é esse arrependimento
quase remorso, de ter negado
colher a flor que se tornou estrela.
(Sim, foi teu sonho que a tornou estrela
numa noite de céu morto, apagado).

E o amargo que provei, ao me sentir
com a tua falta no meu pensamento,
infeliz por que só, sem ser capaz
de encontrar-me, e desfeito, a me indagar
por que esta festa, este contentamento?

O meu castigo foi não ter previsto
que sem ti se desligam meus sentidos:
tenho os olhos abertos mas não vejo,
ouço, e não sei se é canto ou elegia,
ando, e meus passos seguem, já perdidos.

Que reste o consolo de saber
que não sei mais o gosto da alegria,
não reconheço a vida se ela passa,
esqueci o prazer, perdi o tato
para colher o que antes recendia.

O meu castigo é perceber agora
que este amargor é tudo o que me resta
de um remoinho de visões, tal como
indistinto rumos de águas e folhas...
(Tu, ao meu lado, sim, és minha festa!)

O meu castigo é esse remorso a doer
como profundo, um encravado espinho.
Nunca tão cego e surdo, entre a alegria
de tantos me encontrei e eis-me cantando
para fingir que não estou sozinho...


  ( Poema de J. G.  de Araujo Jorge 
in " O Poder da Flor  "  -  1969 )


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