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"
Solidão Amor "

 
De súbito, todo mundo
me parece errado,
sem solução

Ilha dentro da noite, não adiantaria
jogar velhas pontes de amor,
sombras de tédio sobre águas paradas.

Quero mais, e sou capaz de tanto
nessa ânsia que se encapela no coração
vazio, como um mar, só de horizontes.

Tanto amor para dar, tanta vida a esperdiçar-se
(como uma torneira aberta num apartamento vazio,
a água a escorrer sob a porta, a inundar o mundo
em que me debato, perdida a voz, sem ninguém, sem resposta.)

Meu Deus! Por que não tecer encruzilhadas
de tantos desencontros,
não fazer de solidões desesperadas, ninhos e aconchegos
onde a vida pousar?

Neste exato momento, onde estará aquela que, insone
estende os bravos para o frio espelho
onde sua beleza floresce inútil e desolada?

Ela também não sabe que fazer do coração, e em vão o embala
e o aperta nas mãos, como um pássaro palpitante de espaço
fechado entre os parênteses de asas mortas, sem vôo.

Às vezes, tenho a impressão de que se nesses momentos
nos encontrássemos,
tudo se aclararia ao redor, - como se um relâmpago
cindisse a noite, e deixasse sobre nossas cabeças
um halo de imortalidade,
e uma chuva de ternura nos inundaria até os olhos.

Se eu a colhesse agora, e a fizesse minha rede de amor,
- tal como disse o Poeta,
nas terras de seu ventre plantaria um deus.



( Poema de J G  de Araujo Jorge
  in "O Poder da Flor" 1a ed.1969 )


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