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" Retrato Sem Parede "
Banho de chuva, frio, nas barricas
sob as calhas de zinco dos telhados,
ou nos igarapés junto à floresta
por entre as canaranas, sob as pontes;
ovos de tartarugas, soterrados
como tesouros nas areias quentes;
doce "alfenim", tirado na engenhosa
pra dar a Eudóxia na hora do recreio;
a garapa escorrendo na moenda,
um cheiro acre de mel grosso, a ferver;
e a saudade: ingaseiras debruçadas
sobre os igarapés de olhos vidrados;
o vento despenteando as canaranas,
as garças pensativas; pela tarde
um mugido de bois em cantochão;
as mangueiras copadas, coloridas
de pinceladas rubras e amarelas,
e os cajueiros, com saquinhos presos,
estofados de frutos suculentos
protegidos dos pássaros gulosos;
rumor de chuva na floresta ao longe
como um surdo zumbido de besouro;
minha infância a correr de pés no chão.
( Poema de J G de Araujo Jorge
in "O Poder da Flor" 1a ed.1969 )
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