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" Remorso Contemporâneo "
Remorso
dessa felicidade pessoal, feita de coisas simples
e sem importância,
da hora de voltar, da porta que se abre aconchegante,
do amor, sem surpresas, de cada noite;
remorso do mundo rotineiro e acanhado
onde vivo sem acidentes nesse itinerário provinciano.
de minha vida.
Remorso
dessa paz nunca perturbada,
senão por passeatas de jovens que disputam o direito ao futuro
num pais sem direção,
senão por uma miséria tão próxima, mas distante,
que se socorre na televisão com uma caridade bem falante e musical;
dessa paz nunca perturbada
senão por desfiles de tanques silenciosos nas paradas festivas,
- velhas "feiras de amostras" para distrair a fome do povo
em todo caso paz
sem bombas caindo do céu como manás apocalípticos,
sem exércitos mobilizados se triturando inocuamente,
as crianças morrendo nos "orfanatos" ,
os motoristas nas madrugadas
os estudantes nas ruas.
Remorso
desse mundinho burguês a estremecer e a se diluir
num pôquer político em que civis e militares
jogam os destinos de um povo.
Remorso
dessa felicidade de domingo em Paquetá
dessa paz de comemorações de "guerra do paraguai",
enquanto nas estufas do mundo
cogumelos atômicos aguardam o momento da semeadura
e vão sendo adubados os campos do Vietnã.
( Poema de J G de Araujo Jorge
in "O Poder da Flor" 1a ed.1969 )
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