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"
Perdido "

 
Estou perdido. Não poderei nunca ser eu
com a minha vida. Onde andarei? Onde me encontro?

Poliram-me tanto que não me reconheço
em minhas formas, e minha alma se envergonharia
de ser pura, talvez.

Fizeram-me um covarde, castraram-me,
e me deixo ficar entre paredes, entre livros,
alimentado de convenções
posando de civilizado para que? para quem?

Não dormirei nos bancos das praças das cidades desconhecidas,
não me perderei pelos caminhos a cata de borboletas e de novos amigos,
não embarcarei, clandestino, nos navios para qualquer lugar;
não amarei as mulheres como os cães das ruas
sem saber os seus nomes, sem conhecer suas preocupações,
sem ancorar em seus desejos;

serei um homem civilizado,
deslizarei sobre trilhos como os vagões de um trem
levado pelos mesmos itinerários por ignorado maquinista
escravo de horários, conversando em apitos e sinais.

Não serei atropelado, não morrerei nas catástrofes,
não me perderei nos desertos,
não adormecerei sobre as relvas olhando as nuvens e as estrelas
não sonharei, vagabundo, à beira do cais.

Estou perdido.
Poluído de tédio e desamor, como uma infeliz "mulher da zona"
que chora ao se lembrar da infância como a uma irmãzinha distante
que morreu.

Ah! pudesse nascer outra vez para encontrar-me
com a minha vida, e me reconhecer.

E sair com ela pelo mundo, como um saltimbanco,
ir com ela pra terra, feliz como um marinheiro
em cada porto...

(Ah! ir morrendo assim sem ter nascido! )



( Poema de J G  de Araujo Jorge
  in "O Poder da Flor" 1a ed.1969 )


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