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Mundo Cão "

 
Há nas ruas ( estranho! ) estudantes nas ruas,
estudantes sem escolas, que querem    simplesmente estudar;

e notícias de negros trucidados pela fúria branca
de policiais cristãos e democratas, americanos;

e meninos vietcongs, de repente soldados,
enterrados vivos nas covas que abriram , como toupeiras,
ou massacrados nos arrozais e nas cidades fantasmas;

e brancos e índios, negros e "crioulos" dessa imensa
América Latina,
sem terras, a alimentarem a sua própria miséria;

e governos sem povo, a conduzirem o poder
de palanques blindados;
e tanques e cavalaria a triturarem o trabalho
e o pensamento;

e idealistas segregados, como doentes infecciosos,
e patriotas no exílio, e no banco dos réus;

e armas apontando as costas de abortados libertadores,
e mãos algemadas, onde se debatem as ultimas ânsias
de liberdade.
Vocês me desculpem, mas só dizendo como o homem
de vergonha
sobrevivente de suas desesperanças:

- Êta, mundo cão!

(E isto para não soltar no poema, ou fora dele
um palavrão. )


( Poema de J G  de Araujo Jorge
  in "O Poder da Flor" 1a ed.1969 )


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