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"
Minha Alegria "

 
Sou um homem forte. Ninguém me dá a minha alegria.
ela não depende de ninguém

Subitamente me encharca todo, eu a sinto
como sangue
a escorrer pelo corpo,
como se tivesse ferido.

Três horas da madrugada de nenhum dia, de nenhum relógio.
Estou dirigindo meu carro, estou voltando para casa,
como se já tivesse chegado
aquele lugar onde é sempre felicidade, porque sempre se espera.
Flutuo na noite, e a noite me segue, me olha nos olhos, tão perto,
as luzes caminham alegres, irreais, as ruas deitadas à frente
convidando, convidando, como uma mulher de ninguém.

Nesta hora, a só minha a cidade fantástica, despovoada,
mergulhada em mil sonos,
raros carros (serão felizes também?) farejam a sombra adiante
com suas narinas de luz, como bichos irreconhecíveis,
as coisas todas desfocadas, tem dimensões imprevistas.

Sem remorsos, sem desejos, estou levitando
em minha euforia,
e em meu pensamento, convés aberto aos ventos, vou enrolando
pensamentos, como fluidas cordas
que não me prenderão a nenhum cais.

Percebo que estou comigo, estou em paz. Me acomodo em mim mesmo
e me sinto tão bem que me aposso de tudo:
as arvores, as ruas, as sombras, o silêncio,
a noite de ninguém.

A noite - estou nela como um astronauta
fora da capsula,
mas sinto-a tão fisicamente presente, como numa cama
a mulher que a gente ama.

Ninguém me da minha alegria
ela não depende de ninguém.

Cintila em min:,
no coração e eu só, sou matéria e luz
de sua combustão.

Eu só posso senti-la, posso vê-la,
tão pura, tão nítida minha alegria
(como uma estrela)
que nesse instante,
minha vida é um momento de eternidade
imponderável
que desconhece a morte.

Sou um homem forte.


( Poema de J G  de Araujo Jorge
  in "O Poder da Flor" 1a ed.1969 )


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