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"
Gesto "

 

Neste gesto rotineiro de raspar os farelos de pão sobre a mesa
esticando a toalha,
( minha mulher diz que isto a sinal de usura )
sou meu avô Tinoco.

Não, não era usurário. Brasileiro, continuou entretanto português, emigrante,
com aquela ânsia de segurança dos que partem para longe
dos que não sentem raízes no chão de sua terra,
e se põem a armazenar como formigas, com medo dos invernos a da vida.

Só por isto pude dizer:
- afinal sempre tive essa mesa burguesa, sortida,
(a "mesa redonda" de que falava meu avô )
onde havia sempre um lugar para uma cadeira a mais
(contanto que não fosse a 13.a, a de Judas)
para um parente, um neto, um amigo inesperado.

Não sei porque me ponho a pensar
enquanto raspo os farelos de pão sobre a mesa, depois da janta,
e meu filho acompanha meu gesto, curioso,
e quer saber o que é usurário, e o que estou pensando.

De quem terei herdado também esse pensamento obsedante
humilde, e inconformado,
que inutilmente me faz lembrar que há tantos
que se contentariam talvez com estas poucas migalhas,
enquanto me distraio, de estômago cheio, satisfeito,
a limpar a mesa, a raspar os farelos com um gesto mecânico
e enfastiado.

E então respondo: - usurário é uma palavra feia que sua mãe diz brincando,
que seu bisavô nunca foi, nem seu avô,
(ah, esse foi um perdulário, e perdulário, meu filho,
é esse homem em cujo dicionário nao existe a palavra amanhã,
e que por isso morre tantas vezes na véspera,
sem tempo para as dívidas de hoje.)

E que você, meu filho, possa, quem sabe? repetir esse gesto
com esse mínimo de segurança em que todos nos encontramos
mas sem os meus pensamentos,
num mundo que seja "uma mesa redonda" como a da casa de seu bisavô
onde haverá sempre um lugar a mais para o que chegar
e onde todos se sentarão.



( Poema de J G  de Araujo Jorge
  in "O Poder da Flor" 1a ed.1969 )


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