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" Terra III "(Poema Sinfônico)
Allegro-finale


III

A terra é rude, e selvagem, - só morta ela se entrega
vencida na refrega,
como um rio a voltear inutilmente, até
que a boca aberta imensa do oceano
o devora na foz.
É preciso vencê-la, prendê-la, amarrá-la
como a onça pintada, que ferida a bala
ainda defende a vida
e caída
e prostrada,
ainda ataca feroz!

Quantos se foram pare a selva um dia
a procurá-la,
e levaram nas mãos todas as armas
- do terçado do mato e do rifle ao fuzil,
e ficaram de vez!... Nem foi porque tivessem
fome a sede,
mas perdidos e emaranhados
nas malhas da sua rede
nas sombras do seu covil!

Nem foi porque tivessem fome e sede
que há rios rubros e claros,
e há mil fontes pelas matas
aqui, ali, adiante,
a esbanjar águas frias...
- e os galhos estão pesados
de frutos sazonados,
convidando e aguçando o olhar do itinerante
por entre as ramarias!

Que a terra é mesmo assim, tem mistérios, belezas,
que não se espelham na face,
tem humanas fraquezas
e incoerências tamanhas,
como se um coração recôndito pulsasse
em suas entranhas . . .

E quem lhe vê o aspecto, o rosto
agreste e os rincões devolutos,
não sabe a seiva fecunda e boa que lhe aquece,
nem sente o indizível gosto
dos seus frutos!

Ao mesmo homem que a fere, a violenta e a ataca,
estende no galho amigo um fruto doce, e mata
a sua fome,
sacia a sua sede,
e lhe oferece o embalo dos cipós em rede
para dormir...
E se ele tropeça e cai
para não mais se erguer
piedosamente vai
com suas mãos floridas
seu corpo, suas feridas,
cobrir!

E pelos campos, pelas matas, pelas várzeas
esparge estranhos perfumes
e acende pelas terras, pelas sombras, pelas
noites
os círios das estrelas
e as centelhas dos vaga-lumes!
E pelos charcos, pelas noites silenciosas
no coro dos batráquios há uma voz que ecoa
de cá pra lá
de lá pra cá,
a terra não é má
nem boa,
a terra não é boa
nem má,
- nem má nem boa, nem boa nem má
coá... coá... coá... coá...


( Poema de J G  de Araujo Jorge - in
" Festa de Imagens " 1a ed. 1948 )


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