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" Sinfonia Oceânica IV "
Adágio-finale



Porque guardas contigo as origens, talvez
deixaram-te impotente, prisioneiro e mudo,
ficaste encarcerado assim nessa mudez
porque sabes demais, velho mar, sabes tudo.

Rude mar que protestas, clamas a blasfemas,
no teu destino estranho em confusão existe:
a alma heróica de um poeta a libertar-se em poemas
ou a angústia de um louco encarcerado e triste.

Não, não podes falar! Não, não podes ouvir!
Deus, surdo-mudo, em transe, em desespero infindo.
Que idioma poderia mesmo traduzir
a angústia milenar que há em teu seio rugindo?

Quem sabe se das vagas ríspidas, inquietas,
que levantas aos céus sem descanso há milênios,
não vem o dionisíaco ansiar dos poetas
e a louca intuição do espirito dos gênios?

Quem sabe se afinal, nossa própria linguagem
não vem também de ti, do teu mistério, ó! mar!   
E vamos traduzindo afinal a mensagem
que em vão tens procurado em luta articular.

Quem sabe se por nossa voz é que sublimas
essa tua revolta silenciosa e atroz,
- e ora, de tuas vagas, nós fazemos rimas,
ora, encontras teu grito humanizado em nós !?   

Quem sabe se afinal é pela voz dos poetas
que te vais libertando e consegues fugir?
Só por isso talvez temos chaves secretas
que abrem todo o mistério e antevêem o porvir!

Talvez os poetas sejam como búzios, onde
ressoa a tua voz, num rumor de distância,
e é por isso também, que em nossa alma se esconde
esse estranho mistério da poesia, essa ânsia...

Cada poeta é uma voz de vaga nos rochedos!
Cada gênio, onda livre pelo mundo, errante!
Por eles, vais contando aos homens teus segredos
e decifrando as sombras do universo, adiante!

Por isso, velho mar, o nosso pensamento
guarda em sua expressão teu próprio simbolismo.
Filhos teus, nós herdamos o teu sofrimento,
e o mistério do tempo... e o segredo do abismo...

Se foi Deus que fez o homem para revelar-se
e serviu-se de um Verbo Humano que desceu,
talvez o teu poder para manifestar-se
faça de cada poeta um apostolo teu!

Assim, o velho mar, afinal, quem diria?
Somos iguais, embora em destinos diversos:
- tu, guardas no teu seio, a beleza, a poesia!
- eu, tenho as minhas vagas... e as transformo em versos!



( Poema de J G  de Araujo Jorge - in
" Festa de Imagens " 1a ed. 1948 )


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