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" O Sonho "


I
Um nosso irmão, suave pessimista,
já nos aconselhou serenamente:
- não sonhes mais, ó imprudente artista!
ninguém sonha na vida impunemente . . .

O sonho é a eterna flor adolescente
que o gesto nao alcança e não conquista,
e a maldade do mundo, irreverente,
desfolha sem piedade à nossa vista...


As vezes, estes sonhos que sonhamos,
podem chegar a ser frutos nos ramos,
e uma nova alegria nos trairá...

O pólen venenoso que fecunda
a flor, faz com que dela seja oriunda
a fruta que por dentro podre esta!

II

Mas sonhamos, no entanto . . . sem ouvidos
à experiência cruel do irmão mais velho,
e imprevidentes, loucos, esquecidos,
nem damos atenção ao seu conselho...

Vamos sonhando, sonhos coloridos:
amarelo, violeta, azul, vermelho...
- sem querer nos mirar no turvo espelho
dos sonhos, hoje brancos, já perdidos...

Vamos sonhando sempre novos sonhos
que fazem bem ao coração da gente;
sonhar, só pelo sonho... nada mais...

Mesmo a saber que os frutos são medonhos
vamos plantando indiferentemente
que o sonho é o mal que maior bem nos faz!


( Sonetos  de J G  de Araujo Jorge - in
" Festa de Imagens " 1a ed. 1948 )


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