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" Estado de Graça "
Que bom, nestas manhãs claras de outono
de céu puro, lavado, de ar tão leve,
sair, de alma nos pés, sem ter remorsos,
para andar pelas ruas sem destino.
Sentar-se nos jardins, nos bancos frios
ainda molhados pela noite de ontem,
e olhar a grama verde onde o sol joga
mil miçangas de luz nas gotas límpidas.
Ou nos cafés, a surpreender a vida
que lateja nas ruas cada dia,
pensar as vezes: quanta luta estéril,
para que lutar tanto sem beleza?
Olhar o mar, a essa neblina vaga
da manhã que se esgarça e se dilui,
e a praia, a branca praia iluminada
lavando os pés descalços na onda fria.
Que bom, nestas manhãs sair assim
sem um livro na mão, sem pensamento,
de repente tão puro, tão poeta,
como o Sol, como a água ou S. Francisco !
Olhar apenas, respirar apenas,
milagre! cainhar, sem intenções,
passar apenas sem ser percebido
nada mais que viver! Oh! que alegria!
Desde cedo andei nas ruas entre os bandos
dos filhos dos pobres,
andei descalço... e apanhei muitas surras
por faltar às lições...
Tinha orgulho de ser o mais ousado
e sempre o mais sabido,
e era tão atrevido
e malcriado
que muita vez soltava sem querer
uma gíria de feios palavrões...
Houve um tempo em que na rua em que eu morei
o nosso futebol
era a maior de todas as desgraças...
Que o dissessem as janelas que se abriam
em desaforos e ameaças
- e que eram apenas janelas,
pois já não tinham vidraças...
Do nosso grupo, todos se afastavam,
era o terror das mamães
que chamando os seus filhos, avisavam:
"- não quero ver vocês junto a moleques,
esses não servem para companhia..."
E quantas vezes não sorri, ouvindo
a mesma frase
que ao chegar em casa
para o moleque-mor, mamãe dizia...
Como me lembro desse velinho tempo
eternamente criança em meu passado,
- como me lembro bem !
E ainda hoje sinto orgulho quando penso
no garoto que fui, tão malcriado,
moleque como ninguém !...
( Poema de J G de Araujo Jorge - in
" Festa de Imagens " 1a ed. 1948 )
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