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Café da Beira do Cais "

   

Madrugada nos olhos dos pescadores
barcos de velas de neblinas molhadas de oceano.
Cascos batendo, velas rangendo,
rangendo seus ais...

Café da beira do cais...

- "Eia ! João, arreda o "Estrela Dalva !"
- Joga o cabo Maneco, tô atracando!
- Arreia a vela Quinca, já num venta mais !"

Café da beira do cais...

Tem café, tem beco, tem música também,
música da vida que esta' se remexendo, acordando
nas ruas sujas do Mercado
como um formigueiro alvoraçado.

Café da beira do cais . . .

Está olhando os guindastes debruçados
nas costas dos armazéns,
e os mastros dos saveiros, a os vultos dos transatlânticos,
está ouvindo o dialeto dos mercadores a dos marinheiros,
- "ô de lá, de onde vens?"

Há vinte países sentados nas mesas mal arranjadas . . .
Uhn! que cheiro bom sobe das xícaras quentes de café
que tem hálitos na madrugada
como bafos de bocas que respiram...

Bonés tortos, lenços virados, blusas ásperas,
ainda há vento nos cabelos, ainda há lembranças nos lenços,
frios ares nos blusões...
Algazarra de vida que se mexe dentro da noite
como os fetos nos ventres,
conversas de apitos surdos dentro da sombra
da sombra gordona que pesa no ar...

É a neblina da noite ou a fumaça dos rebocadores
que passam como fantasmas sobre o óleo do mar?

A cidade burguesa esta dormindo. O café da beira do cais
está sonhando, a neblina e a sua cocaína...
No seu corpo há tatuagens de âncoras a meretrizes
os olhos das suas portas acesas nas horas mortas
sonham sonhos sonâmbulos de ignorados países...

Café da beira do cais
navio sem mastros, conveses sem ventos,
com mil marinheiros, no mesmo lugar...
Basta morar no cais, perto da estranha musica
do mar...

Basta sonhar...


( JG de Araujo Jorge - extraído do livro
" Festa de Imagens " 1a edição 1948 )


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