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"Translúcidas são as palavras"
No silêncio do pensamento as idéias são puras e
como as coisas desenterradas da noite pelo clarão de
[novo, dia,
cantam as emoções são belas, têm corpos e formas, cantam e
[dançam
bailarinas do abismo sobre as cordas de meus nervos
[tensos e deslumbrados.
Todo um mundo infinito e presente se desdobra sem
[limites e horizontes
sou o palco de minha vida,
e me deixo como criança feliz diante de meus sonhos
[que já não são alegorias
e todas as paisagens se fixam imprevistamente reais aos
[meus olhos surpresos.
Na clara manhã do pensamento sem tempo está tudo
[presente
fantasticamente exato em seus símbolos
e eu me sinto eterno assistindo a esse espetáculo que
[não cessa de surgir e se multiplicar
obediente aos, meus gestos, aos meus desejos, porque eu
[sou o mágico
que faz mágica, com seu coração para a sua própria
[alegria.
Translúcidas são as palavras
a poesia - essa luz, - vaga luz que distante se coa. . .
Mas o mundo, oh! o mundo! é um delírio de sombras
prisioneiras do pensamento, escravas do coração.
Mas, ah! quando julgo ter amestrado esse mundo
[fantástico e quero traze-lo para olhos estranhos
quando quero exibi-lo no picadeiro diante das
[multidões,
se esboroa e desfaz como areia entre os dedos
como nuvem num céu de ventania.
(Poema de JG de Araujo Jorge extraído
do livro A Outra Face - 1949)
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