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"Retrato da infância (quinze anos)"
(Praia de Botafogo - Rio)
Me lembro da minha rua
velha rua da Piedade,
mudou pra Clarisse índio
Clarisse índio do Brasil,
o nome de alguma dama
muito importante, quem sabe?
muito importante, quem viu?
Era rua da Piedade
continuava em Donana
e seguia pra Farani
pela Barão de Itambi.
Fui capitão de moleques
na velha rua, ancorada
na enseada de Botafogo,
e hoje ao vê-la, é como um barco
que tem seu casco encalhado
e seus porões carregado
com os tesouros que perdi.
Às vezes me surpreendo
a retirar os meus ossos
dessas lembranças da infância,
e a rua lembra um sepulcro
onde meus restos deixei:
- o futebol toda tarde
perto do grande gasômetro,
a bola de gude, a búrica
escavando o limo verde
entre os paralelepípedos,
- "marraio! fridô sou rei!"
O Fanstino, o Mário, o Hugo,
Maninho, Walterl, Bebeto,
a bola que ia redonda
tinindo numa "virada",
cheia como lua cheia
na janela do almirante,
e voltava, - que tristeza!
como laranja chupada!
Hoje a infância é comportada
não há futebol na rua,
D. Maria passeia
sem medo pela calçada,
Seu Antônio não receia
boladas no seu chapéu.
- me lembro do Seu Antônio
cuja boca era uma fábrica
de aumentativos proibidos.
Não vejo mais "papagaios"
espanta-coió queimando
pião jogado, rodando,
no chão, na palma da mão,
e os artistas de cinema
das fitas silenciosas
domingo, no Guanabara;
Clara Bow e Greta Garbo,
Buck Jones e Tom Mix
Carlitos e Ri-tim-tim,
embrulhados de surprêsa
junto às balas coloridas.
Chapinhas postas nos trilhos
da Rua Marquês de Abrantes
rasgando os bolsos das roupas;
aros velhos, de barrica,
rodando no chão, no arame;
pneus usados, tocados
com as mãos - a lembrarem bombos
botando cada moleque
em "travesti" de carvoeiro.
Me lembro da minha infância,
escrevi a minha infância
com todas as suas letras
na Rua da Piedade.
Pesquei siri com tarrafa
atrás do morro da Viúva,
carapicu, cocoroca,
de caniço, sobre as pedras;
deixei "papagaio" preso
em cada fio da rua,
fiz balão "Santos Dumont"
estrela, caixa, charuto,
lá na sala de visitas
da casa de meu avô.
Fugi dos guardas correndo
sobre a grama dos jardins
tomei banho no repuxo
do chafariz que ainda existe
na Praia de Botafogo,
e entrava sempre pra ver
o "guignol" das quintas-feiras
- o pano atrás dava entrada
sem ter autorização.
Me lembro do sorveteiro
ouço o "Baiano", gritando:
-"sorvete Yáyá, de côco!
é de côco da Bahia!";
- e a pipoca americana
era de mel ou com sal;
do homem da carrocinha:
"olha a laranja selé-eta
e a boa tangerina";
do Salomão, prestação,
com seus baús de fazendas
tentando as primas e as tias.
Vejo a rua tal como era.
Seu Oscar tossindo
sempre debruçado na janela,
(que asma a do Seu Oscar!)
- e a Dina, um sonho mexendo
com a menina dos meus olhos.
Vejo tudo, lembro tudo.
Os carnavais, o automóvel
preparado para o corso:
caixotes de serpentinas,
capota arriada, e a gente,
- oh! que saudades que eu tenho
da tal capota arriada!
Vejo tudo, lembro tudo.
Os ossos de velhos entes
passando junto ao sepulcro
e olhando, esquecer quem há de?
Ossos das minhas lembranças
que morreram quando crianças
e ficaram enterradas
na Rua da Piedade.
Hoje mudaram seu nome
é Rua Clarisse Índio
Clarisse Índio do Brasil,
- o nome de alguma dama
muito importante, quem sabe?
muito importante, quem viu?
(Poema de JG de Araujo Jorge extraído
do livro A Outra Face - 1949)
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