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"Retrato da infância (dez anos)"
(Em Rio Branco, no Acre)
O "velho" pigarreando
de chinela, de pijama,
despacha papéis na sala.
O anspeçada no alpendre,
o milharal com penachos
as saúvas carregando
como fardos, grãos de milho;
arma o tempo, baixa o tempo,
barrica cheia entornando
cantando em baixo da calha.
Que bom o banho na chuva!
Chuva boa, chuva forte,
veio andando na floresta
fazendo que nem besouro,
abriu cacimba na rua
que virou igarapé;
o milharal se sacode
como galinha no pó,
sacode as folhas molhadas,
cada espiga, - que indecência!
sai da braguilha do pé
potente, como órgão macho.
Junta de boi arrastando
madeira pra serraria,
moleque trepa nos toros
como garça, rio abaixo
no tronco da castanheira;
o carro de boi passando
rodas, gingam, rodas gemem,
tocando harmônica triste
que nem aquela da venda
quando a solidão entorna
saudade no seu Manuel.
O "velho", sem ordenança,
afunda na rede, ronca,
os punhos rangem nos ganchos
as franjas sujam no chão.
Só bem mais tarde, à tardinha,
os amigos vão chegando:
o promotor, o juiz,
o comandante da força,
seqüência, trinca, risada,
janta chegou à cozinha
café quente queima a língua,
gargalhada, palavrão.
- "cuidado que a D. Zilda
está na sala de jantar."
-"Menino corre no Juca
(uf! que calor danado!)
traz "pega pinto" pra todos
faz bem aos rins, sim,senhor!"
O rio verde engordou
com o repiquete que desce,
parece cobra jibóia
entupida com o repasto.
A cobra foi beber leite
a vaca morreu inchada
bezerro ficou mugindo
noite toda no curral,
O carneiro branco, forte,
(presente de aniversário)
leva o Guilherme a passear,
tem cabresto, arreios, tudo,
de repente dá marrada
no carneirinho do Chico.
Tempo bom! Engenho rude,
boi rodando, boi rodando,
- que pena no olhar do boi!
Moenda geme sozinha,
garapa sempre escorrendo
tachada de mel virando
rapadura se fazendo,
cana raspada prontinha,
"alfim" branquinho, puro
que nem o sonho de Eudóxia.
Festa no Grupo Escolar:
eu apache, ela duquesa,
pulseirinha feito cobra
que o preso fez na cadeia
-tem meu nome, o nome dela –
coloco no braço dela,
- primeira algema de amor.
Santinho passado na aula
castigo da professora,
coisas que a gente não diz
atrás do pano do palco.
Caruso estica o pescoço
no gramofone da escola,
canta, canta, toda a vida
a voz não toma xarope.
Sanhaçu voa na mata
baladeira estica, estica,
pedra parte não vem mais.
Banho no rio, barulho
de cascavel chocalhando,
a roupa ficou perdida
na canarana da beira,
-correia enrola na carne
molhadinha, como dói!
Friagem entra na noite
arrepia o rio todo
como corpo de caboclo
que impaludismo pegou,
treme a noite, sua frio
na cobertura de zinco,
soalho fica molhado
goteira pinga na sombra.
Manhã. No alpendre vazio
caiu passarinho morto.
Luz da Usina, candieiro,
o mosquiteiro parece
pano de circo esticado,
carapanã vai e vem.
Nova sessão no "Casino"
fumaceira, gargalhada,
o Distrito Federal fica
a dois meses dali.
Bicho do pé, mucuim,
melão S. João Caetano,
cajazeiro leva pedra
manhã cedo na floresta,
cajá salpicou de ouro
o chão molhado, da noite.
Bago de ingá desafiando
queda na cerca de arame,
sangue na perna, - que susto
na cara de D. Zilda
antes da surra chegar.
Lição de coisas: o touro
e a vaca pastam no campo;
o cavalo e a égua cruzam
nos terrenos da Intendência
à vista de D. Zefa
e do padre Bernardeli.
A molecada faz roda
seu padre faz que não vê.
Manhã cedo no Mercado
o saco de açúcar preto
boca aberta, rindo, rindo;
paneiro, farinha d'água,
e vem o filho do chefe:
mão mexendo, corre, pula,
ninguém prende, ninguém toca,
-"molecada descarada!"
Em cada rua um quintal
mangueiras pesadas, cheias
de sombras, -frutos vermelhos,
manga espada, manga rosa,
manguita doce, tão doce,
como o alfinim da engenhoca;
cajueiro carregado
D. Zilda faz saquinho,
- surpresa do passarinho,-
voou pro quintal do lado.
Bandeirinha de papel
coreto armado na rua,
a banda passa tocando
sargento Zeca, - que pose!
a garotada, - lá vai!
Sino tocando, tocando,
foguete no ar estalando,
vestido novo de seda,
"chata" trouxe de Manaus;
cara pintada, cabelo
com fita grande, parece
que borboleta pousou
na cabeça da Nininha.
Roupa branca, meia branca.
camisa branca, sapato
branco, tudo branco,
parece até comunhão.
mas não é, - é festa só
Catraias brincam no rio
"gaiola" apita, regata,
barranco vermelho, cheio
com a sarna da roupa branca.
- pessoal enfarpelado.
Olho d'água bem debaixo
da casa de meu avô.
Meu Deus, quanta coisa, quanta
coisa mesmo se passou.
Será que isto tudo é meu
ou foi alguém que contou?
(Poema de JG de Araujo Jorge extraído
do livro A Outra Face - 1949)
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