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"Pequeno Canto Num Dia de Luta"
E esta luta. Nunca chegar em casa.
O chuveiro, a secretária, os livros, a música,
a janela aberta, e ainda um resto de tarde
a escorrer como paisagem.
E esta luta. A rua que entra conosco, a poeira,
os ruídos, os automóveis espatifados, a derrapagem
[estridente,
o atropelado palavrão.
Nem saber que ouve tarde, esquecer os horizontes,
nem encontrar a noite, nem chegar às estrelas,
apenas o gás neon, os letreiros alucinados,
a luz caminhando, escorrendo nas ruas, nos bondes
fantásticos.
Nunca chegar em casa. Viajar no livro aberto
e conversar com o mundo, sem interrupção.
apenas com a secretária, a cadeira conhecida
que guarda nosso corpo na ausência,
a paisagem calma, retangular, de onde podem surgir
tantas viagens imprevistas.
Nunca chegar em casa. O lirismo doméstico
num sorriso que apaga as nuvens e os ruídos.
A sensação trágica de espreita criminosa
do desejo burguês que assassinará o poeta
[cotidianamente
na cotidiana e sempre frustrada tentativa de fuga.
(Poema de JG de Araujo
Jorge extraído
do livro A Outra Face - 1949)
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