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"Luta De Classes Em Uma Cena "
Querer subir
chegar ao altiplano capitalista da liberdade.
Desamarrar os punhos, os tornozelos, respirar como um homem
embora sem coragem de olhar para baixo
para não sofrer, para não apiedar-se de si próprio,
para não sentir remorsos,
evitando o olhar do seu semelhante.
Querer viver, realizar-se plenamente, sem transigências,
tocar corneta, fazer sorvete, dirigir bonde, lançar a ponte
pintar o quadro, compor o hino,
arrancar a lei, da necessidade evidente,
arrancar o dente,
perguntar pela urina, olhar a língua suja,
salvar a alma ou a esperança,
se este for o destino.
E então sentir que o trabalho é um canto
que a vida é música
e o destino, uma direção nítida e pura.
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Querer libertar-se, e sentir dia a dia mais emaranhados os pés
mais pesadas as mãos, mais nublados os olhos.
As crianças não cantam, as crianças são sombras
que amassam os ombros.
E ir transigindo lentamente, e descobrir que vai descendo
sem tocar corneta, sem lançar a ponte, sem arrancar o dente,
sem pintar o quadro, sem compor o hino
para não trancar o futuro aos que virão depois e esperam melhor destino.
Perceber então que nunca existiu realmente, que apenas vai seguindo
a colher o necessário, sem direito à palavra
sem direito a escolher.
E um dia, num surdo desespero, perceber que já é tarde
e que os filhos ficarão de pés emaranhados,
as mãos pesadas caídas, os olhos cegos abertos,
tal como ele, num destino que não muda
diante da mesma escalada,
- sem um degrau de ajuda...
(Poema de J. G. de Araujo
Jorge extraído
do livro A Outra Face - 1949)
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