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"Duas máquinas"
Altas horas, no silêncio da minha rua sem ônibus
sem bondes,
ouço distante uma máquina que escreve.
Será sofrimento, será alegria, será apenas trabalho
esta música que vem de dentro da noite
de um apartamento, em que andar?
Paro de escrever e escuto, e escuto o seu bater nervoso
telegrafando ao meu pensamento.,
como se respondesse, num misterioso código, às minhas
[mensagens.
Que coisas dirão aquelas teclas batendo, batendo
[ininterruptamente
como um coração assustado?
A quem se dirigirão, nessa ansiedade estranha de
[S. 0. SS. emitidos
para vazio mar, sem resposta e esperança?
No silêncio da noite, altas horas, bato as teclas da
[minha máquina,
como quem responde a alguma mensagem,
como quem dá esperança a um apelo ignorado.
No mistério deste diálogo sem palavras, inarticulado,
- fiandeiras misteriosas estão tecendo poesia as duas
[máquinas,
estão semeando, estão enchendo à noite de sugestões,
estão vivendo.
Que importa se seus S. 0. SS. se perderão na noite
[alta e vazia,
onde navegam como cargueiros, pesados sonos
[burgueses.
Que importa? se elas fazem poesia.
(Poema de JG de Araujo Jorge extraído
do livro A Outra Face - 1949)
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