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"Canto Inicial"
Hoje sou puro, nada me perturba
nenhuma mancha me atingirá.
Nada desejo, além das coisas que me cercam
as ruas, as casas, as árvores, a amanhã.
Ouço pássaros com suas claras vozes na minha alegria,
vejo a terra úmida com suas águas que passam
[escachoantes
e as verdes folhas que nascem na sombra com a forma
[de coração
e que tomam a voz dos córregos para cantar.
Não quero ler, não quero contágios, não quero poluir-me,
encontrei-me numa remota infância, sem futuro, sem passado,
sem vida,
e tenho nu o corpo, sinto o sol na epiderme.
Hoje quero olhar o céu, as nuvens itinerantes
desmanchando símbolos ao vento,
quero molhar os pés no mar, no vazio mar, na vazia praia
mesmo cheio de barcos, mesmo cheia de gente.
Hoje quero surpreender-me nas origens
descobrir-me, como a um córrego entre pedras verdes
na mata fechada onde a luz é um bailado de frestas inquietas.
Quero surpreender-me nas origens, e vou escalar-me,
[vou descobrir-me
nas coisas que me cercam,
no canto dos pássaros, no movimento das folhas, na
[alegria do mar,
na música do espaço.
Hoje, sou puro, os animais não se espantam à minha
[passagem, os peixes conversarão comigo,
os pássaros responderão ao meu canto,
as crianças me estenderão as mãos para fazer roda,
e inutilizarei todas as palavras, e em silêncio, no
[profundo e luminoso silêncio
cantarei
Hoje sinto-me puro, - o instinto como um cristal
[trespassado de luz.
(Poema de JG de Araujo Jorge extraído
do livro A Outra Face - 1949)
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