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 " BEM-AVENTURANÇA "

Bem-aventurados os funcionários públicos
porque deles é o reino da terra...

Aceitar humildemente o "ponto", reduzir as humanas preocupações
aos cinco minutos antes e aos cinco minutos depois
da hora de entrada.

Reduzir seus temores ao fígado do chefe
ou recear alguma mudança no Ministério.

Oh! Esperar a hora do lanche e a hora do café,
reclamar das partes que são exigentes, há tantos meses
atrás do processo rotariano que faz turismo por trezentas e tantas mesas.

Discutir futebol, conversar sobre tricô e política,
namorar com a seção do andar de cima,
e esperar, oh! Tormento! aqueles últimos quinze minutos
antes das cinco ou das seis
para pegar a fila, ainda curta.

Bem-aventurados os funcionários públicos
porque deles será o reino da terra.

Para que trabalhar demais? Despachar mais? Atender mais?
O Estado é complacente e cego, não tem olhos, não está na seção
- é o patrão ideal –
paga em cheques ao portador.

Oh! A suprema paz de espírito de não pensar em ficar rico,
aspirar apenas uma casinha num plano de 20 anos, com financiamento
ou um apartamento em eterno projeto de incorporação;
querer apenas que venha um chefe amigo, liberal-democrata,
ou arranjar uma comissãozinha.

Não alimentar dionisíacas inquietações, não tomar conhecimento
dos jogos da bolsa, de cambiais, de planos e inversões, oscilações do mercado,
apenas despachar o processo, - onde estará o processo?
o processo encapado pelo Dasp e que veio do protocolo
numa carruagem século XVIII....

Oh! não ter que pensar em concorrências, em disputas em fazer força,
esperar pacientemente pela sorte como um comprador de bilhete
- o seu dia chegará...

Sentar-se às onze e quinze e olhar em torno, feliz,
os colegas que se aproximam com as novidades de sempre.

Oh! Bem-aventurados os funcionários públicos

porque deles é o reino da terra.


  (Poema de JG de Araujo Jorge  extraído
do livro A Outra Face   - 1949)

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