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Sugestões... Na Tarde de Chuva... "

    
Aqui dentro, em meu quarto de estudo, que calma !
Qua calma ainda maior, no entanto, há dentro de mim...
Estes dias de chuva, é que encheram minha alma
de motivos sem cor... e de gestos de splim...

Estas tardes de cinza e de recolhimento
repousam minha vida das cores berrantes...
...Há em mim... esse silêncio bom de isolamento,
e um desejo pueril de mil coisas distantes...

Os pingos, pelos fios que passam lá fora,
para os meus olhos, são como contas de um terço,
- e a chuva... a repetir a mesma ária sonora
quem sabe se a cantar não embala algum berço ?

A tarde morre, suave . . . A chuva cai, tão boa...
Fica muito mais triste a chuva ao fim do dia...
Quem será que na rua vem trauteando à toa
uma velha canção que eu quase já esquecia?

Quem será? Ah! se fosse o rumor de teus passos!
Ah! se enfim fiasses tu, (tu que um dia partiste...)
que voltasses de novo, só para os meus braços,
nesta tarde de chuva ensimesmada e triste...

Fosses tu, que tornasses para a nossa vida,
para aquecer o ninho bom de antigamente,
- e trouxesses tua alma, quente e arrependida !
- e trouxesses teu corpo, arrependido e quente !

E as tuas mãos de novo para as minhas mãos,
e os teus olhos de luz para a sombra dos meus...
- e lançasses, voltando, as sementes e os grãos
na terra que ficou vazia após o adeus...

Há dias chove assim... Dias longos, cinzentos...
Sozinho, horas a fio, entre livros calados
gosto de ouvir lá fora a cantiga dos ventos
e os monótonos sons da chuva nos telhados . . .

Isolamento bom!... Calma... Estranha doçura...
Folhagens na vidraça embaciada, acenando...
E um nome de mulher... (é a chuva que o murmura!)
minha mão no papel sem querer vai traçando...



( Poema de JG de Araujo Jorge - do livro
Eterno Motivo; -  Prêmio Raul de Leoni,
da Academia Carioca de Letras - 1943 )


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