
![]()
*****************************************
" Não, Mãe, Hoje Não Sairei..."
Não, mãe, boje não sairei ...Quero ficar contigo,
quero ficar sozinho...
Não procures buscar além ela minha face,
acharias estranho se te confessasse
minha angústia imensa...
- hoje... quero sentir que não morri,
quero ouvir que me falas, que vives, que estás aqui,
quero me convencer da tua presença!
Encontrando-me só, debruçado à janela,
daqui a pouco, bem sei, virás me perguntar:
- "Estás doente, meu filho? Com uma noite tão bela
por que não vais passear?!"
- Não, mãe, não sairei . . . Quero ficar contigo,
embala-me nos teus braços como em tempos de então...
Não tenho febre, e até tenho dormido bem,
não te preocupes, mãe . . . não tenho nada, não!
Chegaste, oh! minha mãe, - e ao ver-te eu murmurei:
- "Nossa Senhora da Paz!"
Que doce a luz dos teus olhos! Que suave e belo o seu brilho!
- Nossa Senhora da Paz!
E então me perguntaste:
- "Que crianças são essas no jornal, meu filho?"
- órfãos, órfãos da guerra, minha mãe, crianças
perdidas, sem esperanças,
crianças tristes sem pais!
Sobre a minha cabeça a tua mão pousaste
e um minuto em silêncio, então, ficamos...
Eu sei que ambos pensamos
nos soldados que morrem, nas mães que soluçam,
nas crianças sem abrigo
- tão bom, oh! minha mãe, eu sentir-me ao teu lado
- tão bom, oh! minha mãe, eu ter-te ainda comigo!
..................................................................................
Eu nunca me encontrei com o espírito estranho e perturbado
assim,
- quem sabe se a alma errante de um soldado morto
que longe dos seus caiu, sem carinho e conforto
não se encarnou em mim?
Por absurdo e inverossímil que esta idéia pareça,
senti na tua mão sobre a minha cabeça
o carinho de todas as mães que não conheço
nem nunca me conheceram,
- como se pelo teu gesto elas todas se expressassem
e com ternura afagassem
os filhos que morreram!
Não, mãe, boje não sairei ... Pensando em todos os órfãos
cujos rostos estão nos clichês dos jornais,
- quero ficar contigo, e ter certeza que vives,
ter certeza que vivemos e ainda somos felizes!
e ainda estamos em paz!
( Poema de JG de Araujo Jorge - do livro
Eterno Motivo; - Prêmio Raul de Leoni,
da Academia Carioca de Letras - 1943 )
*****************************************