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Estranho Remorso... "

    
Às vezes, quando escrevo feliz uma poesia,
me assalta um estranho remorso, incompreensível
que não sei de onde vem:
"Quem sabe? pode ser que esse meu canto de alegria
faça mal a alguém..."

Meu irmão triste, meu irmão doente,
perdoem-me a cantiga frívola e contente,
que me fugiu dos lábios na manhã alvissareira
de verão
Ela brotou sem querer da minha felicidade!
- é  que eu trago uma cigarra cantadeira
e imprudente
dentro do coração!

Não é por mal, não é por mal...

Quem pode condenar a alegria da cigarra
em seu sonho
estival ?
- a estridular distraída e tagarela
e a dizer que a vida é bela,
- na árvore verde que há no pátio tristonho
do hospital ?


( Poema de JG de Araujo Jorge - do livro
Eterno Motivo; -  Prêmio Raul de Leoni,
da Academia Carioca de Letras - 1943 )


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