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 " Depois ..."
 
 Pronto... agora seremos como dois irmãos
 unidos pelo amor que há pouco nos venceu...
 Meus sentidos não tocarão tua beleza
 nem sentirás a aspereza do meu corpo de encontro ao teu...
 
 Há em ti a quietude das águas remansosas  e protegidas
 e eu sou como um barco de velas recolhidas
 guardando no cordame dos mastros, a nostalgia  erótica dos ventos,
 e no bojo, ressoante, o rumor impetuoso do mar alto...
 Pronto ...  Já agora o meu pensamento ficou límpido e  sereno
 como um céu sem nuvens depois que o vento passou
 num temporal...
 - e consigo te amar - um amor quase fraterno
 e ameno, -
 que fica à margem do bem...  que paira acima do mal!
 
 Já  agora seremos apenas como dois irmãos ...
 
 Adormecerás em meus braços, como a tua mão que ficou
 em minhas mãos,
 e eu ficarei a enlaçar-te, com os lábios em teus cabelos
 numa ternura imensa
 
 - esquecido da tua presença ...
 
 Tens um vago olhar de sonho ... e devo ter um vago olhar
 de criança,
 e envolve-nos essa paz, essa serenidade,
 do mar calmo depois da chuva, e de um céu de bonança
 depois da tempestade...
   
 já não me ouves, bem sei... se a tua cabeça sobre meu ombro pendeu
 em abandono...
 - meus sentidos não acordarão tua beleza
 nem sentirás a aspereza do meu corpo perturbar teu sono...
 
 Pronto... Ficaste nos meus braços, quieta, adormecida,
 como dentro das minhas mãos as tuas mãos..
 
 Estranho o nosso amor... Interessante a vida...
 
 - Há pouco, loucos, como dois amantes
 - Agora, puros, como dois irmãos!


 
( Poema de JG de Araujo Jorge extraído do livro
Eterno Motivo; -  Prêmio Raul de Leoni,
da Academia Carioca de Letras - 1943 )

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