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" Canção Humilde "
Hoje, ao despertar,
quando abri para o mundo a janela do quarto,
sem querer, sen sentir, eu me pus a pensar:
- não fui eu que plantei estas árvores todas
nem coloquei um só tijolo nestes muros brancos,
nem ergui uma viga ao menos, nestas casas
que me cercam,
não contribuí com a menor parcela, para tudo isto que vejo:
- a máquina onde escrevo, a mesa, a folha de papel
tão branca
como os lençóis da minha cama ao sol,
ou a imagem longínqua do primeiro beijo!
- nem os canteiros podados, onde há tímidas violetas
e um belo girassol de alma de Ariel,
ou mesma aquela flor humilde e pequenina,
que me olha com um olhar ingênuo e descuidado,
um doce olhar azul da cor do céu...
Tudo nasceu, cresceu, e tem vivido
indiferente à minha presença e ao meu trabalho,
tal como a flor pequena e humilde do jardim...
Isso tudo que vejo, e me cerca e entusiasma,
fizeram sem que eu soubesse mesmo que o faziam
e construíram sem mim...
Foi com um olhar penitente, que de repente me achei
humilhado e mudo
assim como um intruso, sem direito a nada,
- dentro de tudo...
Hoje... quando de subido encontrei o pensamento
ao abrir a janela à manhã triunfante,
senti, nesse segundo,
- como sou pequenino e insignificante
diante do mundo!
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Por isso é que escrevi esta canção tão simples
com um grande sentimento íntimo e profundo,
despindo o coração de orgulhos e de véus...
Eis tudo o que de mim posso, ofertar ao mundo:
- um punhado de sons efêmeros que cantam
coo as águas na terra... e os pássaros nos céus !
( Poema de JG de Araujo Jorge - do livro
Eterno Motivo; - Prêmio Raul de Leoni,
da Academia Carioca de Letras - 1943 )
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