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" A Manhã é a Minha Namorada "
Foi hoje, quando acordei que notei a presença da manhã...
Olhei-a nos olhos azuis, tão claros e sem nuvens,
e ao meu olhar surpreso e deslumbrado
um mundo novo de repente se revelou na luz macia
e diáfana...
Emocionei-me como um menino, e revivi a perturbação
do primeiro encontro com a namorada. . .
Interessante! Mas só hoje reparei na manhã que chegou...
E notei que ela veio sorrindo nas papoulas e nas rosas
vermelhas
estonteando enxames de abelhas,
- e tinha nas faces coradas
um ar de colegial em férias . . .
Nas tranças verdes da manhã, vinham duas borboletas
de asas coloridas
correndo doidas atrás dela...
Só hoje reparei na manhã, quando ela chegou com o
seu odor estranho
de corpo de adolescente depois do banho,
toda vestida de gazes transparentes e vaporosas...
E reparei nas suas formas redondas,
e reparei nos seios duros e fortes
vestidos de alvas neblinas luminosas...
Só hoje eu reparei que apesar das tranças verdes das folhagens
e de seu ar infantil de instinto e de pureza,
a manhã já não é menina
a manhã já é moça nas suas formas redondas...
Eu vi os seios da manhã tremendo nos frutos maduros
que ninguém provou,
- eu vi no colo da manhã um colar de contas brilhantes
cor do dia,
e adivinhei o mistério do corpo virgem da manhã
na mataria espessa que veste a montanha
e que a noite orvalhou...
E eu ouvi a voz musical da manhã, na alegria distraída das águas
cantarolando sozinhas,
e vi a manhã correr de pés descalços nas ondas
andando sobre o mar...
Eu abria a janela, e a manhã veio correndo me espiar,
veio do céu c da terra,
veio do ar,
a mania menina e moça de alma de náiade pagã
E eu louco poeta incorrigível,
me apaixonei pela manhã...
Ela entrou no meu quarto trêfega e contente
e com seus dedos de sol tocou nos vidros e metais,
mexeu em tudo que viu
e espiou para os lençóis da minha cama desfeita...
Depois... fugiu...
Lá se foi pelos caminhos com as mãos cheias de pássaros,
levada pela aragem numa doida correria,
rasgando o seu vestido
de galho em galho...
( E as contas do seu colar espatifando-se no espaço
eram gotas de orvalho...)
Hoje eu me apaixonei pela manhã,
senti até no meu corpo o contato do seu
num estranho calor,
e debrucei-me à janela para confessar à manhã
o meu amor...
Será que a manhã ouviu minha declaração?
Lá se foi ela a correr, luminosa e feliz, sonora e inquieta,
sem me dar confiança...
Será que a manhã já é moça... ou será que a manhã
ainda é criança?
( Poema de JG de Araujo Jorge - do livro
Eterno Motivo; - Prêmio Raul de Leoni,
da Academia Carioca de Letras - 1943 )
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