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A Lenda do Mosteiro "

    

Que infinita é a quietude das grandes áreas quadradas
debruadas
de arcadas...

Que infinito é o silêncio dos grandes pátios brancos
no centro dos mosteiro
e conventos,
cercados
de muros brancos, por todos os lados,
protegidos dos homens e dos ventos...
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Tudo é branco ao redor... as paredes são brancas
e há pombos brancos arrulhando
na borda dos tanques, redondos, parados...
- dos tanques que são olhos vidrados
de monge,
cheios de nuvens brancas acenando ao longe...

Ali, naquela
janela
silenciosa, e cercada de grades enormes,
sob uma trepadeira de folhas disformes,
que se esgueira sinuosa,
e parece espreitar, na sombra da janela
silenciosa uma história esquecida...
- um mistério qualquer...

Frei Antônio morreu naquela
cela.
e daquela
janela
olhava os muros brancos e sonhava com a vida
e via na trepadeira um vulto de mulher...

Ao redor, tudo em paz...
- passos de sombra, leves, passos de lã,
e os pombos arrulhando, e um roído de asas ruflando
dentro da manhã
sem escarcéu...
- além, a torre é um dedo a apontar para o céu...

E lá dentro, onde os pombos brancos vão pousar,
lá dentro das arcadas
de pilastres finos,
há cordas prendendo as brônzeas revoadas
dos sinos!

Quando a tarde demora no céu cor de violeta e opala
e as arcadas não jogam mais sombras no chão
e a trepadeira um doce perfume no ar trescala,
e os pombos voam assustados
para todos os lados;

- quando os sinos entoam as "ave-marias"
de estranhas melodias,
e a noite é um "capuchinho" a pervagar o espaço
descendo em cada outeiro,
- que tristeza a cantiga das águas no tanque
rezando uma oração no pátio do mosteiro!...

Quem sabe se esse repuxo é alma de algum monge,
de um monge que já foi poeta
e se cansou da viver?
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Na parede há um crucifixo... no altar há sempre acesa
uma vela...
- Por uma tarde assim de ouro azul-turquesa,
frei Antônio morreu de angústia e de tristeza
naquela... cela...
  

( Poema de JG de Araujo Jorge - do livro
Eterno Motivo; -  Prêmio Raul de Leoni,
da Academia Carioca de Letras - 1943 )


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