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"
Mancha no Tempo "



Apesar de tudo nunca será Vargas, como Lopes, Francia ou Rosas,
nao tem vértebras, apenas forma humana.

Será o Getúlio, o Gêgê, o Rebeco, como o Maneco ou o Quincas.

A História só recolhe os que deram ao nome
a força do ser, positiva ou negativa.

Nao foi. Faltou-the convicção para ser, coragem para marcar,
caráter para impor,
o gesto que identifica o herói, no altruísmo ou no crime.

Nem soube matar. Houve apenas crimes, nunca heroísmo.
A mulher gravida foi entregue à Gestapo
o idealista pôs sangue pela boca, nove anos sem sol,
o professor de Leningrado pensa que é flor no pátio do presidio,
a mocidade caiu nas praças à traição, os operários levaram de volta
a tuberculose para as crianças;
outras crianças receberam bandeiras, outros operários
receberam cartazes;
o estadeio se encheu de coros a acenos comandados,
a professora de Historia do Brasil foi demitida.

1 bilhão de Cruzeiros para os coros e as bandeiras
e os retratos nas paredes, e a invasão dos sindicatos,
e os cânticos rastejantes. O escritor estrangeiro de 2a classe
- fabricante de gazuas para a Historia -
apresentou a biografia e o vale de 500 mil cruzeiros.

Apesar da prestidigitação, ficará do lado de fora.

Fabricou-se um espelho encantado: "quem é o maior homem do mundo?"
" e o maior estadista? e o nosso chefe? e o guia da nacionalidade?"
" e salvador nacional? e o financista? e o pai dos pobres?"
" e a mãe dos ricos? e o irmão dos médios? e cunhado de Hitler?"
"e o filho de Mussolini? e o amigo de Roosewelt? e o irmão de Churchil?
"e o inigualável, o inefável, o simpático, o formidável?"
" e o rei dos reis? e o rei dos cabritos? e o porco que ri? e o pai de todos?"
" E o espelho respondendo: é ele, é ele, é ele!" "Heil "," "Heil!" "Heil"!
Não havia tuberculose, nem impaludismo, nem raquitismo, nem sífilis,
nem crianças mortas, nem fome, nem ditadura,
exportávamos trigo, fabricávamos aviões, cantávamos Democracia.
Não havia pobreza: produzíamos milionários,
milionários em massa, processo do Estado-Novo.

Brasil ! – O locutor ventrículo manda tocar o hino nacional,
depois se envergonha: venha o Guarany de Carlos Gomes.

Nunca será substantivo próprio, ficará adjetivo.
E será o crime, o juiz absolverá; houve ofensa,
foi chamado de "getúlio".

A História dirá um dia: no tempo de Eduardo Gomes
houve um tiranete. Foi esmagado como um verme
a pisada dos homens livres apagou seu rastro.


(Poema de JG de Araujo Jorge extraído do livro
"Estrela da Terra" 1a edição - 1947  )


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