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" 34 TROVAS "
01- ABSURDO?
Explica-me tu, querida,
este absurdo, por favor:
ser Senhor da tua vida
e escravo do teu amor?!
02- AGRADECIMENTO
Assim mesmo te agradeço,
depois que tudo passou,
os momentos verdadeiros
que o falso amor me deixou...
03- CEGO? DOENTE?
Perigoso, onipotente,
verdadeiro ditador,
o ciúme é um cego, doente,
ou um doente, cego de amor?
04- CEGUEIRA
Na vida, em passos incertos
segue em plena escuridão,
quem tendo os olhos abertos
tem fechado o coração.
05- CÉUS E ABISMOS
São céus e abismos profundos
nem eu posso descreve-los:
mergulho em teus olhos fundos
e me afogo em teus cabelos!
06- CINICA
Aos meus ciúmes doentios
tu me disseste, ainda nua:
de olhos abertos, sou dele;
de olhos fechados, sou tua!
07- COMPENSAÇÃO
Ah, quando escuto teus passos
meu coração se acelera
que um só minuto em teus braços
vale mil anos de espera!
08- CORTESÃ
Esquece, amor, meus pecados
tu me disseste a sorrir,
se nos meus olhos cerrados
só tu me podes possuir...
09- DOENTE
Não há remédio: estou doente.
É doença este amor por ti!
Não te esqueço e justamente
por pensar que te esqueci!!
10- ERA TANTO?
E era tanto o que eu pedia?!
Por que negavas assim?
Afinal eu só queria
que tu te desses a mim...
11- ESTE "SENHOR" ...
Trata-me apenas por tu
se estamos juntos, e a sós,
não ponhas este Senhor
tão importuno, entre nós.
12- ESTRANHA MOEDA...
Moeda de estranho valor
que o coração faz cunhar
quanto mais se gasta, o amor,
mais se tem para gastar...
13- FRIO OU CALOR?
Cobri com as mãos os teus seios...
tremiam, nus, meu amor...
não sei se era de receios,
se de frio...ou de calor...
14- GOSTAR
O que me surpreende e desgosta
e nos dói mais fundamente
é quando ao gostar, se gosta
de quem não gosta da gente.
15- IMPORTA
Mentiste? Foste mesquinha?
Que importa se já não cremos?
Importa é que foste minha,
que eu fui teu, e que vivemos!
16- INFINITO?
Às vezes não acredito:
como há de findar assim
o nosso amor infinito,
se o Infinito não tem fim?!
17- JARDIM
Nesse jardim de surpresas
que foi o amor que me deste:
as violetas, são tristezas,
minha saudade, um cipreste.
18- LUAS CHEIAS
Teus seios são luas cheias
são ondas de um doce mar,
parecem feitos de areias
nas noites brancas de luar...
19- ME ESQUEÇO...
Antes verdade isto fosse:
dizer que não penso em ti...
mas basta ver-te, e acabou-se!
me esqueço que te esqueci.
20- MENTIRA
Mentiste. A felicidade,
só mentida, assim se expande...
Nem podia ser verdade
felicidade tão grande...
21- NUNCA MAIS...
Podes ter outro Senhor
até mais rico que um rei,
mas nunca mais outro amor
há de te dar quanto eu dei...
22- POBRE ALMA
Pobre alma triste e cativa!
E há quanta gente como eu
a pensar que ainda está viva
sem saber que já morreu!
23- PRETENSÃO INÚTIL
Digo em vão que te maldigo
(ó pretensão tola e louca!)
e tudo o que eu penso e digo
vira trova em minha boca!
24- QUE IMPORTA?
Foram horas bem vividas
que os dois soubemos colher,
se foram ou não fingidas
que importa agora saber?
25- QUEM DIRÁ?
Assim tão só, como eu fico,
Tão sem ti, neste amargor
- quem dirá que eu já fui rico,
milionário de amor?!
26- REVERSO...
E dizer que foste um dia
tudo o que eu quis...e foi meu...
E hoje, nem és a poesia
que foi tua, e te esqueceu...
27- ROSAS
Rosas tolas tão vaidosas,
que em belas hastes vicejam...
Vem, amor... olhas estas rosas,
quero que as rosas te vejam...
28- SAUDADE ( I )
O tempo a tudo desbasta
mas nem a tudo desfaz:
a saudade não se gasta,
como o tempo... ainda aumenta mais!
29- SAUDADE (II)
A saudade, intimamente,
devagarinho nós rói,
é uma emoção diferente
como uma dor que não dói...
30- SEM CORAÇÃO
Que eu não tenho coração
não és tu, sou eu que digo...
como hei de ter coração
se tu o levas contigo?
31- SORTE
Para ler a minha sorte
e saber se é má ou bela,
com as minhas mãos não se importe:
vai ler, cigana, as mãos dela.
32- SUPREMA IRONIA
E eis a suprema ironia
ao meu coração ferido:
tu foste trair-me uma dia,
mas, com quem? - com teu marido...
33- SURPRESA
Louco de amor te busquei
E ao te encontrar, percebi
que não fui que te achei,
eu, sim... é que me perdi...
34- TUA DOÇURA
Vida amarga! E na amargura
da vida, eu pensei, querida:
quem dera a tua doçura
para adoçar minha vida!
( TROVAS de J.G. de Araujo Jorge
do livro "ESPERA..."- 1960 )
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