Entrevista 1
Entrevista 2
Entrevista 3
Entrevista concedida por J.G.de Araujo Jorge a Carlos
Camargo,
na sucursal e "Manchete , em Porto Alegre, 1969.
Ele nasceu na vila de Tarauacá, antigo Território do Acre num dia 20 de
maio de 1915, há vários anos passados. " Os anos passados, são aulas
aprendidas" diz o poeta, que é professor , no Colégio Pedro II. Suas
fãs, milhares e milhares, se contradizem: umas acham-no com um "que"
atraente; outras afirmam, "beleza não é tudo" E são estas que dizem: "O
que ele tem de belo no exterior, esconde (olhos azuis atrás de óculos
escuros). " Mas todas são unânimes e agradecidas a ele pois, tudo o que
de belo tem, no interior, exterioriza através de suas poesias.
Ele é J.G. de Araujo Jorge, o único poeta brasileiro que já vendeu mais
de um milhão de livros. E talvez, o menos divulgado de todos. Seus
leitores se encarregam disso e também da parte de relações públicas, e
elas (as obras de JG pertencem, com um egoísmo impressionante, às fãs)
são excelentes, nesse trabalho.
E à elas, dedicamos este questionário, que foi respondido pelo "poeta do
amor eterno", e preenchido em nossa sucursal de Porto alegre onde ele
veio para o lançamento dos "Jogos Florais" gaúchos:
Quinze respostas de JG
P- Que acha da poesia em si?
R- A poesia é a vida acontecendo no poeta. Afinal o que é o poético
senão o poeta? A vida é apenas barro. Tu serás ou não, Deus.
P- O que acha do amor?
R- É a capacidade de "ser". O homem ama amplamente, e de modo
multiforme. Sem amor não se " é ". Ama-se ao próximo como preconizava
Cristo há quase dois mil anos: para se somar o mundo. Ama-se " a próxima
..." para a multiplicação...
P- Onde busca sua inspiração? Escreve sempre?
R- Não busco. Ela me encontra. Está na vida. Passo meses, anos, sem
escrever uma linha. Escrevo um livro, em poucos dias. Acontece.
P- Qual seu meio preferido de distração?
R- Olhar. Há muita gente que tem apenas olhos para ver. A capacidade de
se ter, "olhos de olhar" a vida, recolhendo dela tudo o que nos pode
oferecer é mais empolgante.... e o mais barato de todos os
divertimentos.
P- Qual o maior poeta nacional.
R- Os poetas são como instrumentos. Não posso dizer entre um violinista,
um pianista, um saxofonista, qual o maior. Cada um é grande no seu
instrumento. Citarei poetas de minha predileção: Moacyr de Almeida, Raul
de Leoni, Augusto dos anjos, para falar dos que já partiram, mas
continuam com a gente, apenas com a sua poesia.
P- Qual a melhor poesia que já escreveu?
R- Difícil. As poesias vão marcando "momentos" de minha vida, como os
luvros fixam "etapas". Cada uma delas representa, portanto, algo de
particular. Mas dá-se o fato curioso: às vezes as poesias de que mais
gosto não são as de que gostam mais meus leitores. Eles, ou elas, por
exemplo, preferem as minhas poesias líricas: eu prefiro as sociais, e
até as políticas.
P- Qual o tipo de mulher eu mais lhe agrada?
R- A que me compreende. Só a compreensão liga realmente um homem a uma
mulher. O resto é efêmero. Mas como me pergunta a maior qualidade na
mulher para me atrair, eu responderia: a sua feminilidade, a sua
ternura, a sua capacidade de dar-se.
P- Qual a diferença do romantismo do passado e o da atualidade?
R- Costumo dizer que o romantismo não foi apenas uma escola literária,
mas um estudo de espírito que independe de escolas. Os modernos são
também românticos, apenas o romantismo do nosso tempo se apresenta com
características diversas do romantismo do Século XIX, o chamado " mal do
século". O romantismo do homem de nossos dias é um romantismo sensorial,
que tem raízes profundas na realidade.
P- A conquista do espaço fez decair o valor dos termos poéticos
referentes à Lua, estrelas, etc?
R- Ainda não. Quem sabe lá daqui a alguns anos? Escrevi certa vez que a
minha poesia " era como aquela face da Lua que ninguém vê, voltada
sempre para o infinito." E hoje, russos e americanos já conseguiram
fotografar a outra face da Lua... Evidentemente terei de mudar a minha
poesia para outro planeta, ou satélite, mais inacessível...
P- Existe amor platônico?
R- Deve haver: o dos idealistas, o dos frustrados ou doentes. Mas o amor
é como a poesia, ou como a flor, - por mais belo que seja, ou por isso
mesmo, precisa da seiva que vem do chão, do trabalho das raízes.
P- Acredita no amor à primeira vista?
R- Não. Acredito em simpatia. O amor exige tempo para definir-se,
plasmar-se. O amor não nasce amor, como da semente não nasce a flor.
P- Com que idade escreveu suas primeiras poesias?
R- Com 12 anos mais ou menos. Meu primeiro livro (Meu Céu Interior
,1934) é uma coletânea de poemas escritos entre 14 e 17 anos. Escrevi
minha primeira poesia na mesma época em que era o capitão do "time"
campeão de futebol do Colégio Pedro II, onde estudei.
P- O que mais lhe agrada na vida?
R- A vida. Nada há de mais extraordinário. Veja o que disse, neste final
de soneto:
"Podes tudo pensar, tudo criares
em histórias e cantos singulares,
o que o sonho não pode, a alma não deve,
e ainda assim hás de ver que não és louco,
que tudo que pensaste é nada e é pouco,
ante o que a própria vida ensina e escreve!"
P- Que escrito dedicaria à Valentina a astronauta russa, primeira mulher
a devassar os espaços?
R- "Tu que não cres em Deus
mas que O olhaste de perto, em teus olhos
traze para os homens a sua muda mensagem
ainda incompreendida."
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