Entrevista 1
Entrevista 2
Entrevista 3
ENTREVISTA COMIGO MESMOCompilado do livro "No Mundo da
Poesia" - edição do autor-
página 229, 1969.
- Que Pensa da arte?
Insopitável necessidade de emergir. Todos
nós que vivemos soterrados em tantos "eus, sentimos ânsias de ar, de
sol, de revelação, de comunicação. A arte ajuda o homem a se aceitar, a
compreender o mundo que o cerca, a se aproximar de Deus. A alma humana,
como as baleias, vive mas precisa vir à tona para respirar.
- E do poeta ?
É um tradutor de realidades subjetivas.
UM transfigurador. Um mergulhador dos mares do espírito. É através de
mensagem, que o homem comum consegue atingir "o outro lado" das coisas!
Seu trabalho enriquece a todos. Já o poeta é um prestidigitador - faz
mágicas com a Vida - transforma água em vinho, para a embriagues da
beleza.
Mas há o reverso da medalha: quantos poetas tenho encontrado que apenas
não fazem versos!
E da poesia ?
É a ciência do coração. Os poetas são os
sábios do sentimento. E quantas coisas revelam sem se aperceberem de
suas descobertas. Tenho dito muitas vezes: são seres que pensam,
sentindo ou, pensam, porque sentem. Constróem seu mundo com emoções.
Quando pretendem filosofar, falam de amor. E falar de amor já é fazer
poesia.
A poesia é criada pelo pensamento, mas seu material é o sentimento.
Cobaias de si mesmos, os poetas, em experiências e pesquisas constantes,
revelam a vida, são apenas homens que nasceram poetas.
- Então, o poeta não é um ser diferente?
É um ser diferente num homem comum. Sou
um homem comum, apenas dispondo de recursos para realizar uma tarefa que
não está ao alcance de todos. O poeta é como um alpinista, que já
nascesse trazendo em si mesmo os instrumentos e apetrechos para poder
realisar escaladas.
Sou um homem comum que anda na rua, canta no banheiro, vai ao futebol,
toma porre, diz palavrão, faz versos para ela; que ama, briga, sonha,
desespera, como qualquer um. Há um velho adágio latino: "primeiro viver,
depois filosofar". Bem se poderia parafrasear: primeiro viver, depois
poetar.
- E por que acha que faz poesia?
Talvez porque a única coisa que sei, e
sei mal, sou eu mesmo. Se ninguém gostasse de minha poesia ainda assim a
faria. Pois nasci para isso. Não é tanto que eu goste de minha poesia,
mas porque preciso dela, o que talvez venha a ser a mesma coisa.
Mas, o fato é que, sem minha poesia., ficaria doente, como um índio
confinado numa cela, sem sua selva, seus rios, seus pássaros, sua
liberdade. Me encontro nela como peixe no mar. Ela me dá a impressão de
que não é só do meu espírito, mas do corpo também. Eu a sinto, quase
fisicamente. Os artistas são como as cigarras: estas, morrem de tanto
cantar; nós, se não contarmos, morreremos.
- É fácil ou difícil fazer versos?
Fácil, ou impossível. Impossível, no
sentido de ser. Você pode se tornar um pianista, nunca um "virtuoso".
Você pode aprender a fazer versos, nunca a ser poeta. Poesia não é só
construção. Se não, poderíamos abrir uma escola para poetas, como há uma
escola de Engenharia ou de Direito. E é preciso que se diga isto, quando
há uns poetas por aí negando-se a si mesmos.
Quanto a mim, já respondi: Eu faço versos assim,/ como quem respira ou
canta / a poesia nasce em mim,/ como do chão nasce a planta.
- Gosta do que faz?
É como se me perguntasse se gosto de rir,
ou de chorar. Gosto de cantar, de mataborrar minha alegria ou minha dor
em versos. Poderia até responder numa quadrinha: Eu faço versos assim/
como quem ri, ou quem chora,/ e ao arrancá-los de mim/ fico nú e vou-me
embora. .
- Que acha de sua obra?
Seria difícil responder, de dentro dela,
onde me encontro. Faltam-me isenção e perspectiva. Mas sou um velho
fazedor de versos, que em suas releituras muita vez não se reconhece em
sua própria obra. Somos tantos afinal, em nós mesmos, em mortes e
renascimentos que nos acabam e nos multiplicam. Mas seria um pai
desnaturado se não gostasse do que nasce de mim, com todas as qualidades
e defeitos que são os meus.
- Julga-se um poeta moderno?
Um poeta moderno é o que se comunica com
o seu tempo, e lhe traduz as esperanças, anseios, desesperos. Se os
moços lêem os meus versos e os sabem de cor, e os escrevem em seus
cadernos, e compram meus livros, então não sou apenas um poeta moderno,
de hoje, mas um contemporâneo do futuro, porque já estou me dirigindo ao
amanhã.
- Que acha do amor, como tema poético?
O mais importante. Veio explorado, mas
inesgotável, só os verdadeiros poetas conseguem, encontrar-lhe novos
"filões". Confessei em "Eterno Motivo": Não me envergonho nunca de falar
de amor. E repeti, em "O Poder da Flor". Acima de tudo cantarei o amor./
O de Cristo e Confúcio, o de Romeu e D. Juan, / o de Che Guevara,/ acima
de todo cantarei o amor.
- Então, o amor é o grande tema ?
Sim, o amor, a vida. Está no meu "Cantiga
do Só" poesia sem vida, é como flor de papel, de matéria-plástica
Falta-Ihe seiva, viço, perfume. Não será mel nem fruto. Não conhecerá
pássaros nem abelhas. É uma imitação triste.
E a poesia tem que ser múltipla pelas próprias contingências da vida.
Sem falar de minha poesia social e política (sou talvez o único poeta
brasileiro com livros de poesia política: "Estrela da Terra",
"Mensagem", a segunda parte de "O Poder da Flor), minha obra lírica
evoluiu, como é natural, a cada livro. Hoje, nos meus últimos livros,
meu lirismo é um canto dramático, em que o lírico é mais um fio
melódico, à distância.
- Há lugar para a poesia em nossos tempos?
Em todos os tempos. E quanto mais árido o
chão, mais sede de beleza sentirão os homens. Nas bicas, nos cantis, nas
mãos, no coração, nas pedras, a poesia é água fresca sem a qual a vida
morre. Por isso já escrevi: Alegria / é apanhar no chão,/ a água da
minha poesia / a correr, / e dar a quem tem sede no coração / para
beber.
Isto me dá a sensação também da constante utilidade da minha poesia,
pois percebo que muitos precisam dela, como de um pedaço de pão, ou de
um gole d'água.
A poesia é, além do mais, companhia e confidente. E quanta solidão anda
por aí desarvorada, sem uma porta que se abra, um coração que a receba !
- Que acha da criação?
Não sei defini-Ia. Sei que após ela, nos
sentimos leves e felizes, como devem se sentir as mulheres após a
maternidade, as crianças depois das aulas, a terra depois da chuva.
Proust a definiu: decolar. . .
- Há inspiração?
Sim, é um toque de Deus no artista. Uma
espécie de "mediunidade". Um transe, um "estado de graça" tão natural,
como a manifestação do amor. O poeta não é apenas "o arquiteto, o
engenheiro, o construtor, o operário" como diz Vinícius, mas o próprio
morador do edifício, e sem sua presença, a sua construção é menos que
uma ruína, será um edifício vazio, sem alma, sem sentido. Com o
pensamento, o homem faz prosa, faz Filosofia, Direito, Teatro, Romance.
Sem o sentimento, não há poesia, ou o que há de poesia, será àquela vaga
emoção que o pensamento conseguiu perturbar ou despertar. Alguns, raros,
poetas, pensando, se emocionam. O processo da criação poética é,
entretanto, outro; sem trocadilho, inverso: porque se emocionam, os
poetas pensam, e então criam.
E o ato de criar verdadeiro é imprevisível. O poeta, não diz: bem, vou
fazer um poema. O poema é que vem, e diz: estou aqui, escreve-me. Tentei
explicar todo um livro, "Harpa Submersa": sua linguagem escorreu como
lava de vulcão, fixando todas as emoções e angústias interiores.
Cristalizou-se muitas vezes, como os minerais que constroem ângulos e
arestas sem conhecer as leis das cristalografia.
Assim é a poesia.
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