" Trecho de Carta Inútil "

 
Tu não mereces o meu sofrimento
ele é grande demais para quem és,
nem devia afinal (triste momento),
- por fraqueza humilhar meu sentimento,
e ajoelhar-me adorando-te aos teus pés...


Passaste tão depressa!... Em minha vida
às vezes penso que nem foste minha!
Como a aragem soprando distraída
acendeste uma brasa adormecida
e deixaste-a a queimar-se após, sozinha...


Ainda guardo a silhueta de teu vulto
e o que ontem me dizias sei de cor,
- por tudo o que mentiste não te insulto,
fiz das lembranças que deixaste um culto
e a vida sem lembranças... ainda é pior...


Mas, não toquemos nisso... Não se deve
falar de um mal que nos maltrata assim,
- nem sempre o que se pensa a gente escreve...
- que o esquecimento seja um véu de neve
descendo suave sobre o nosso fim...


Foste um lírico instante de beleza
a efêmera existência de uma flor!
Uma folha a rolar na correnteza,
um segundo de anseio e de incerteza,
- mentira ingênua que eu chamei de amor!


Gota d'água brilhante ainda em suspenso
num fio... quando o sol quente a encontrou,
- partida que não teve o adeus de um lenço,
história antiga que não tem mais senso,
livro que o vento sem querer fechou...


Que fizeste do mundo de alegrias
que presenteei ao teu destino vago?
Dei-te a mancheias tudo que querias,
- palavra de honra que não merecias,
o sádico prazer com que me embriago...


Não mereces a dor que punge e espinha
nem esta carta viva de emoções!
Às vezes penso que nem foste minha
e que a minha alma louca, anda sozinha
num delírio de sombra e de visões!


É sempre assim. A mão destrói o sonho!
Toquei-te... E eras de pano, tola e fútil,
- ainda bem que te foste!... Hoje, tristonho
reduzi - com estes versos que componho -
a nossa história numa carta inútil...


Nunca esta carta te será bem-vinda
hás de soltá-la indiferente aos pés...
Confesso, - quando a dor me fere ainda
que a Vida que sonhei e hoje está finda,
era grande demais... para quem és...


(Poema de JG de Araujo Jorge extraído
do livro " AMO ! " 1a edição 1938 )



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