"Essa"


Essa, que hoje se entrega aos meus braços escrava

olhos tontos de amor que aos poucos me farto,

ontem... era a mulher ideal que eu procurava

que enchia a minha insônia a rondar meu quarto...


Essa, que ao meu olhar parado e indiferente

há pouco se despiu - divinamente nua -,

já me ouviu murmurar em êxtase fremente:

- Sou teu!... E já me disse, a delirar: - Sou tua!


Essa, que encheu meus sonhos, meus receios vãos,

num tempo que eram vãos meus sonhos, meus receios,

já transbordou de vida a ânsia das minhas mãos

com a beleza estonteante e morna de seus seios!


Essa, que se vestiu... que saiu dos meus braços

e se foi... - para vir, quem sabe? uma outra vez,

- segui-a... e eu era a sombra de seus próprios passos...

amei-a... e eu era um louco quando a amei talvez...


Hoje, seu corpo é um livro aberto aos meus sentido

já não guarda as surpresas de antes para mim...

( não importa se há livros muitas vezes relidos

importa... que afinal, todos eles tem fim)


Essa, a que julguei ter tanta afeição sincera

e hoje não enche mais a minha solidão,

simboliza a mulher que sempre a gente espera...

mas que chega e se vai como todas se vão



(Poema de JG de Araujo Jorge extraído

do livro " AMO ! " 1a edição 1938 )



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