Homenagem do Jornal A Voz da Serra ao poeta J. G. de Araujo Jorge -
  Nova Friburgo - Rio de Janeiro - 16 de maio de 2002




 Texto do Jornal:

J.G. de Araujo Jorge
O poeta do amor eterno que
fez de Friburgo a sua  musa

 

Nova Friburgo está devendo uma homenagem à altura a este poeta, que talvez tenha sido o último poeta romântico do Brasil. Durante muitos anos, J.G. de Araujo Jorge passava todos os fins de semana em seu sítio, no bairro da Cascatinha. Desde então criou raízes sólidas por aqui a acabou elegendo Friburgo a sua segunda terra. J.G. dedicou à cidade diversos trabalhos em prosa a também poemas, destacando-se o conhecido Canto a Friburgo.

    Nos idos de 1959, juntamente com o poeta Luiz Otávio, criou os Jogos Florais, que ao longo de todos esses anos revelou centenas de trovadores e contribuiu para restaurar o prestígio destas pequenas jóias literárias de sete sílabas. J. G. também foi membro da Academia Friburguense de Letras, onde ocupou a cadeira de número 36.

    Apesar de ter publicado mais de três dezenas de obras e do êxito editorial de quase todos os seus livros, Araujo Jorge nunca foi reconhecido pela crítica literária. Raramente os grandes jornais publicavam alguma apreciação sobre seu trabalho, o que ele chamava de "conspiração do silêncio". O fato é que J.G. foi um dos poetas mais populares que o Brasil já teve e o único que vendeu mais de um milhão de livros. Entre as décadas de 60 a 80, os versos de J.G. estavam nos cadernos de poesia dos jovens, eram declamados em festas e recitais e difundidos em programas radiofônicos, jornais e revistas de todo o País.

    Sua poesia está viva até hoje, emocionando os corações enamorados e traduzindo seus desejos, angústias e esperanças. Uma rápida consulta pela Internet revela a existência de 910 páginas citando seu nome, além de um site próprio (www.jgaraujo.com.br). J.G. de Araujo Jorge está presente em todos os sites de poesia, com poetas do porte de Cecília Meireles, Carlos Drummond de Andrade, Fernando Pessoa, Vinícius de Moraes e outros.
    Ele se orgulhava de ser um homem que vivia intensamente. Foi professor, jornalista a publicitário de sucesso. Na época ficou muito conhecido por seus jingles, que garantiam sucesso a qualquer produto que anunciavam. Um deles é lembrado até hoje: "Isso faz um bem", da Coca-Cola.

    J.G. também foi advogado a político de destaque. Em 1970 foi eleito deputado federal pelo MDB, sendo reeleito por mais dois mandatos consecutivos. Tinha uma presença ativa na tribuna, apresentando projetos relevantes. Um deles, o que propunha comemorar nas segundas-feiras o feriado que ocorresse durante a semana, foi, inclusive, transformado em lei pelo presidente José Sarney.

    Lembrando J.G.


   
Rodolpho Abbud, trovador

"J.G. de Araujo Jorge era um poeta friburguense, nascido no Acre... O seu Canto a Friburgo, com os famosos versos "Parada de um caminho, a caminho do céu", ecoa como um verdadeiro canto de amor filial a Friburgo, cidade que ele jamais se cansou de exaltar. Ele a Luiz Otávio, outro enamorado de Friburgo, legaram à nossa cidade os Jogos Florais, que permanecem vivos até hoje, 43 anos após a sua criação, como está viva, até hoje, a memória de J.G.

Está merecendo o seu busto, ao lado do de Luiz Otávio, na Fonte do Suspiro."

     Lurdes Gonçalves, escritora

"Antes de ler os livros de J.G., conheci-o como orador, aplaudido pela juventude especial da época, usando como palanque a escadaria do Theatro Municipal e outros locais abertos ao povo. Suas idéias libertárias a humanísticas empolgavam as massas e despertavam a consciência do homem do povo, que o carregava nos ombros. Encontrei-o depois em rodas de escritores e jornalistas, no restaurante a nos bares vizinhos da ABI, onde se discutia literatura, política a poesia.
    "Devo a J.G. as sementes de meu amor por Friburgo. Ele chefiava a redação da McCann-Erickson a eu fazia parte de sua equipe como única representante feminina. Ao voltar de seus fins de semana nestas serras, decantava com entusiasmo as belezas friburguense, a profusão de suas flores, o verde de suas montanhas, a cordialidade de sua gente, prometendo a si mesmo uma aposentadoria perfeita no sítio que aqui possuía, o que o destino não permitiu.
Com Araujo Jorge aprendi a objetividade e a síntese do texto publicitário, sem sacrificar o capricho literário.

 "Seus livros não eram bem aceitos pela mídia, que o acusava de fazer romantismo para mocinhas ingênuas. Era um preconceito perverso, pois estes livros vendiam aos milhares e esgotavam edições sucessivas. Pode-se atribuir a posição hostil da imprensa à timidez de J.G., para não dizer ousadia, em desagradar à ditadura ou envolver-se em conflitos contra o poder estabelecido. Timidez que nunca tolheu a verdade em seus versos, nem mesmo quando, deputado federal, e ocupava a tribuna da Câmara.
"Considero essa homenagem de A VOZ DA SERRA a um dos poetas mais lidos do século 20 no Brasil não só um ato de justiça a desagravo, como também de gratidão e amizade ao homem que era um apaixonado fiel de nossa cidade. Que não pode a não deve esquecê-lo."

      Yedda Santos, escritora

 "Há muito tempo venho chamando a atenção de algumas pessoas sobre nossa desconsideração para com J.G. de Araujo Jorge, o poeta que amou esta cidade, não com um amor obrigatório, entrelaçado por raízes de consangüinidade ou pela tradição de ser o seu berço geográfico. Amou-a com aquele amor eletivo, de escolha consciente, feito de ternura a entusiasmo a cada nova descoberta.

 "Uma cidade que tem em sua praça principal um monumento a Virgílio a até placa de bronze homenageando Elizete Cardoso, uma cantora que, particularmente, não nos diz nada, esqueceu o homem que lhe compôs o mais belo dos cantos, tornando-se definitivamente a "Parada de um caminho... a caminho do céu".
    "Descobri a poesia de J.G. em minha adolescência, quando o coração começava a bater de forma diferente, embalado por novas emoções, e
seus versos falavam coisas que eu não sabia expressar. Depois admirei sua poesia factual, clamando por liberdade e igualdade, num país tão cheio de desníveis sociais a tão carente de paladinos. Essas reminiscências remetem J.G. a um lugar importante em minhas memórias. Mas é como friburguense nata que o meu respeito é maior, porque ele soube cantar a minha cidade com a visão de um verdadeiro apaixonado, como se o seu amor lhe possibilitasse grafar liricamente a intimidade deste rincão, de uma forma que até hoje, nós, pobre poetas bissextos, não conseguimos imitar."

    Um Poeta

    J.G. dizia que é possível aprender a fazer versos, mas nunca a ser poeta. "Poesia não é só construção. Senão, poderíamos abrir uma escola para poetas, como há uma escola de Engenharia ou de Direito. Quanto a mim, já respondi: Eu faço versos assim/ como quem respira e canta/ a poesia nasce em mim/ como do chão nasce a planta"

    Ele também dizia: "O poeta é um tradutor de realidades subjetivas. Um transfigurador. Um mergulhador dos mares do espírito. O poeta é um prestidigitador - faz mágica com a vida. Transforma água em vinho, para a embriaguez da beleza. A poesia é criada pelo pensamento, mas seu material é o sentimento. Cobaia de si mesmos, os poetas, em experiências e pesquisas constantes, revelam a vida, são apenas homens que nasceram poetas. O poeta é como um alpinista, que já nasceu trazendo em si mesmo os instrumentos e apetrechos para poder realizar escaladas.

    E mais: Se ninguém gostasse de minha poesia ainda assim a faria, pois nasci para isso. Não tanto porque eu goste de minha poesia, mas porque preciso dela, o que talvez venha a ser a mesma coisa. Sem a minha poesia, ficaria doente, como um índio confinado numa cela, sem a sua selva, seus rios, seus pássaros, sua liberdade. Eu me encontro nela como o peixe no mar. Ela me dá a impressão de que não é só do meu espírito, mas do corpo também. Eu a sinto, quase fisicamente. Os artistas são como as cigarras: estas, morrem de tanto cantar; se não cantarmos morremos".

"Presente!

Muitos fogem

Por covardia,

- Eu não!

Empunho minha poesia

E vou em frente...

E respondo ao meu tempo:

- Presente!"

                                                                       
                                       Texto e Imagem retirado do jornal "A Voz da Serra"