Prefácio da 1a e 2a Edições de "Meu Céu Interior"

"
Meu Céu Interior
1a edição"

(Um belo trabalho do crítico literário Carlos de Povina Cavalcanti)

UM POETA

José Guilherme de Araújo Jorge. 19 anos de idade. Tez pálida.
Fronte larga. Olhar inquieto. Movimentos nervosos. Ar de abstração
e de sonho.Com essa ficha, o adolescente autor deste livro seria
identificado em qualquer porto literário, aonde os bons ventos
da imaginação o levassem, velejando com a alma da poesia.

Tudo nele denota o temperamento do nome subjetivo, que procura
um interesse oculto da realidade e vai surpreende-lo, com as antenas
do sexto sentido, nos encantos e nas seduções imateriais da beleza.

Não temo apresenta-lo: eis aqui um poeta.
A poesia, a velha ou a novíssima poesia, é uma só.

As escolas são as ramagens de um tronco secular. Frondejam na
primavera, mas vem o outono e a árvore se despe das folhas
xantofiladas.

Apenas, na memória dos que pousaram à sombra da árvore e
ouviram a música dos ninhos, fica indelével a impressão de remanso
e de harmonia, que é o embalo do sonho.

Se mais verdes ou mais belas as frondes; se mais numerosos ou mais
afinados os pássaros cantores, não importa nada. Às vezes a seiva
circulante não tem força para criar as novas roupagens da primavera.
A atividade recôndita das raízes parece fatigar-se e exaurir-se.

Mas, lá um dia, como se o chão fosse revolvido e o húmus da terra
renovado, o tronco reanima-se num esplendor de folhas, de flores
e de frutos.

O milagre é da seiva. Sabe-se que existe. O trabalho bioquímico,
porém, é invisível. Assim imponderável, inefável, como o queria o
abade Bremond, a poesia é mistério. Está em todas as cousas. Tem a
idade do mundo e não envelhece. O seu clima é universal; pertence a
todas as latitudes.

Aqui está sem dúvida um poeta. Alma sensível, coração encordoado
para as vibrações do sentimento, Araújo Jorge é um romântico e um
lírico da família dos cantores apaixonados.

Na hora das inovações estéticas quando certos homens maduros
andam a pintar os cabelos às suas musas,na ânsia de remoçarem,
fingindo de novos com o emprego de artifícios, este menino aparece,
como um irmão mais chegado do mais velho poeta sentimental.

Espontânea, natural, emotiva, a sua poesia adolescente é cheia de
turbulência e de volubilidade.

A imaginação andou por aqui semeando conflitos, cantando
madrigais, desarvorando destinos.

Muitas vidas integradas numa vida, eis o tema perene deste livro
de que é motivo essencial o amor.

Como num depósito, certa porção de líquido a purificar pode ter
várias procedências, mas todo ele sofre um único processo de
filtração, as vidas filtradas pela poesia de Araújo Jorge são
transparentes de sentimentalismo e ternura, os dois pólos de sua
imaginação.

Explica-se, assim que tenha escrito, por exemplo, "Tarde
Demais!", um poema de desengano e amargor, figurado
num remoto futuro:

"Quantos anos, meu Deus!... é esquisita essa vida...
Depois que a nossa estrada em duas foi partida,
em uma, novamente, agora as quis juntar...
Mais de nada serviu... De que serviu no vermos
se o presente tornou os nossos sonhos ermos,
se não podes me amar!... se não posso te amar!..."

A poesia permite essas liberdades. Aliás, ele próprio adverte:

" Não procures um poeta compreender!"
Compreender, para que?

Andam desavisados os censores, que existem novos processos
rítmicos, para dentro deles se exprimir o espírito moderno, como
condição essencial da poesia.

Ainda é possível, - e sê-lo-á sempre – impregnar de poesia, da
mais alta, da mais pura, da mais bela poesia, um soneto
rigorosamente metrificado.

Não examino a técnica da poesia de Araújo Jorge. Observo,
entretanto, que esse poeta menino, tem uma simplicidade tão
grande, que o artista nele é espontâneo, fácil, harmonioso.

A perfeição constituirá, mais tarde, o inacessível escopo de
sua arte. E será uma fonte de estímulos crescentes para a sua
ascensão.

Por agora, o poeta estreante, dá liberdade aos sonhos, que se
encasulam no peito, contente de vê-los em revoada, numa
ciranda de festas emocional.

Imagino que ele próprio se surpreende com a materialização
dos, sentimentos, que fazem a trama de seus conflitos interiores,
ingênuos, românticos, efêmeros.

A vida ainda não lhe deu as amargas experiências de que é cheia.
O que ele sente não chega a ser realidade. É a impressão misteriosa
daquele sexto sentido próprio dos homens de imaginação e
sensibilidade: a ressonância dos sofrimentos humanos, que cada
um de nós abafa no mais íntimo do ser e se espiritualiza na poesia.

Todas as ânsias, todos os pesares, todas as angústias dos poetas
amorosos tem a realidade do marulho das ondas no espiral da
maré profunda, mas, na verdade, é apenas uma ilusão. Está lá
dentro a voz do mar exata e auditiva.

Na família dos poetas amorosos, é hereditário o sofrimento pela
imaginação. Este não fugiu à regra. Será mais estimado pelos
que tenham realmente sofrido...

Não pretendo apontar um poema característico da feição estética do
livro. Todavia, ressalvo a naturalidade e a graça, com que Araújo
Jorge faz as suas confissões amorosas. Acho-o aí, tão à vontade, que
me dá a impressão de um livro de Pierre Ronsard, meigo e lírico,
acendendo paixões e consagrando-lhes versos.

  •  
  • "Qu’alors que lhe vieil age
    aurora comme um sorcier changé votre visage.
    Et lors que vos cheveux deviendront argentés,
    Et que vos yeux aurez, si quelque soin vous touche
    En l’esprit mes écrits, mon nom sur votre bouche"

  • "Quando o tempo branquear os teus cabelos
    hás de um dia , mais tarde, revivê-los,
    nas lembranças que a vida não desfez...
    E ao lê-los ... com saudade em tua dor...
    hás de rever, chorando, o nosso amor,
    hás de lembrar, também , de quem os fez...

    Se nesse tempo eu já tiver partido
    e outros versos quiseres, - teu pedido
    deixa ao lado da cruz para onde eu vou...
    Quando lá, novamente, então tu fores,
    podes colher do chão todas as flores
    pois são versos de amor que ainda te dou!..."
  • Essa constância póstuma, tão originalmente reflorindo, tem feitiço
    de uma novidade na poesia amorosa.
    José Guilherme de Araújo Jorge está no seu clima.
    Se ainda bebe da água da Castalia, é que a água dos nossos morros
    dá verminose...

  •  
  • Rio, Setembro de 1934.

    Povina Cavalcanti.
  • ________________________________________________________

    Meu Céu Interior (2a edição, 1948)

    Antes do Prefácio(Texto de J. G. de Araujo Jorge)

    Relendo estes versos, alguns ainda escritos quase de calças curtas,
    garoto ainda do Colégio Pedro II, não posso deixar de sorrir. Há uma
    infinita ingenuidade em quase todos. Hoje custa-me a crer que pudesse
    tê-los sentido ou imaginado. Digo estas cousas, para que os leitores não
    se esqueçam de colocá-los à devida distância.

    Que inveja porém dessa juventude, - quase e ainda infância, - ou
    dessa infância – que queria ser juventude, a falar de amor e de
    outros assuntos menos sérios... Que nostalgia dessa pureza extinta,
    tão pura, mesmo quando a querer dar impressão de pecado original.

    A falar sinceramente, nem me lembrava mais de alguns destes versos.
    Agora que os releio em provas, eles me sabem a frutos de vez, acres,
    acre-doces na sua imaturidade adolescente.

    E que estranho sentimento, estranhíssimo – tristeza, remorso, alegria,
    saudade – na lembrança desse poeta que um dia existiu em mim e que
    desapareceu com os primeiros passos; na impressão dessa ingenuidade
    irreconstituível!

    Hoje, o poeta de "Cântico do homem prisioneiro!", do "Canto da
    terra", de "Estrela da terra", tem fundos pés de raízes nas terras
    da vida... Não crê mais em céu... nem mesmo em "céu interior"...



    Pensei em rasgar estes versos. Mas, rasgá-los por que? Pensei em
    corrigi-los, endireitá-los... Mas, estaria eu realmente a corrigi-los,
    a endireitá-los, se os modificasse? Ou na realidade estaria a
    mutilá-los, a desenformá-los?

    Compreendi logo o absurdo e a insanidade do meu pensamento.
    Se eles nasceram algum dia, e se viveram desta forma, assim
    subsistirão ou se dissolverão. Não cabe a mim, ressuscitá-los ou
    destruí-los.

    Isto seria, de certa forma profaná-los, seria matá-los. E há neles
    afinal, apesar de verdes imperfeições, o halo sagrado da beleza,
    ainda que, apenas entre vistas ou esboçadas. Estátuas desenterradas,
    retém a visão e as características da emoção, no tempo.

    Se foram as primeiras gotas, que guardem com a água da nascente,
    a inicial transparência. Transparência nunca mais recobrada,
    e perdida, depois que as águas caíram e tocaram a terra.



    Esta Segunda edição de "Meu Céu Interior", cuja primeira edição
    data de 1934, sai por sugestão de alguns livreiros e para atender
    à curiosidade de alguns leitores de outros livros meus.

    Desculpem-me os que não tem nada com isto...

    Incluo o mesmo prefácio da primeira edição, um belo trabalho do
    crítico literário Carlos de Povina Cavalcanti. Escreveu então Povina
    Cavalcanti: " José Guilherme de Araujo Jorge. 19 anos. Tez pálida.
    Fronte larga. Olhar inquieto. Movimentos nervosos. Ar de abstração
    e de sonho.

    Com esta ficha o adolescente autor deste livro seria identificado em
    qualquer porto literário, aonde os bons ventos da imaginação o
    levassem, velejando com a alma da poesia."

    Isto faz-me lembrar uma outra ficha que se encontra na Delegacia
    de Ordem Política e Social, onde se lia: "Agitador comunista".

    Mas, se ontem, a primeira ficha poderia me servir, hoje nenhuma
    das duas me identificaria. No poeta de outros livros, na minha vida
    prosaica, as vezes política, não há mais vestígios daquele "ar de
    abstração e de sonhos", e a mentira da " ficha policial" se desfez
    quando dois de dezembro de 1945, se escancarou a grande janela
    democrática aos ares sadios da liberdade.

    Me lembro de Afrânio Peixoto, quando escreveu sobre este livro:
    "Bilaqueano em "Sozinho" e na " Estranha Encruzilhada".
    " Vingança" bem me soube mais: bem homem, bem mau... esplêndido! "

    Entusiasmos do mestre pelos trabalhos dos jovens.

    Talvez que a releitura de algumas dessas impressões críticas seja
    também culpada pela presente edição. Gostaria de saber dos
    leitores que me escreveram pedidndo esta re-edição se eu tinha
    razão em não querer atende-los...

    No fim, talvez pensem como eu: quando a terra é áspera e amarga,
    vale ao menos a lembrança de que já ouve "um céu interior"...

    J. G. de Araujo Jorge

    Rio, junho de 1948