O Poeta Fala. ( J.G. de Araujo Jorge)

- Prefácio do livro "Concerto a 4 mãos", 1959.

ESTE LIVRO TEM UMA HISTÓRIA

Foi no mês de Outubro de 1955 que recebi no meio à minha
correspondência, um punhado de belos poemas, mandados de Portugal.
Os poemas vinham datados de 20 de Setembro, e assinava-os um
pseudônimo: "Musa Triste". No verso do envelope um curioso
endereço: "Chalet Althair, Monte Estoril, Lisboa."Quem será
"Musa Triste? ", pensei. E escrevi e publiquei na ocasião, uma
pequena crônica para assinalar o fato. Transcrevo-a, porque faz
parte da história, e posso considerá-la mesmo como o seu primeiro
capítulo. Ei-la.:


QUEM SERÁ A "MUSA TRISTE" ?

Algumas das maiores alegrias de minha vida como escritor tem sido
as cartas que recebo de leitores distantes, até onde chegou a
mensagem de meus versos. São cartas, na sua maioria de moças, de
moças de todas as idades, em cuja alma, a vida ainda não conseguiu
pisar a beleza e osonho.
Recentemente respondia uma delas:

"Como um pombo correio de asas cansadas
depois de longa viagem
tua carta singela
pousou em minha mesa...

Respondo à tua mensagem...
Que estes versos possam chegar a tua janela
Como um canto de pássaro em uma manhã de sol
E de beleza..."

E como pombos correios, as cartas chegam todas as manhãs, e eu tomo
nas mãos, na expectativa do que encerram, sentindo-as palpitar em suas
emoções. E algumas são tristes. (Aquela do presidiário, por exemplo,
para quem, alguns dos momentos felizes, era espiar a vida do lado de
fora pelos meus poemas. A que recebi de um doente do mal de Hansen,
pedindo-me inclusive, livros para o Leprosário. A que recebi de uma
Associação de cegos, insistindo para que continuasse com o programa
que mantive na Rádio Eldorado durante alguns anos: "Encontro
com a Poesia.") Quase todas as manhãs, encontro sobre a minha mesa
duas ou três cartas. E confesso que o dia já me parece diferente se acaso
fica em branco, se elas não chegam. Nesses dias releio às vezes as que
falaram mais perto ao meu espírito e ao meu coração. Aquela, por
exemplo, de um companheiro negro, da África Ocidental Portuguesa
até onde chegou um exemplar do meu "Estrela da Terra". Minha
resposta, se encontra mesmo no "Harpa Submersa":

"Um irmão de Luanda, um irmão negro me manda uma mensagem de
paz e me aperta ao seu coração, emocionado, e me agradece
o que julgou ter encontrado naquela "estrela da terra"...

Releio a carta, e um calor me aquece o coração com esta palavra que
vem de longe
e me toca como o sol,
que fala acima de fronteiras e desconhece oceanos
- como a visita pródiga e inesperada de um irmão extraviado que voltou...

E releio então outras cartas, -- revoada imprevista que o meu canto
acordou
e que justificam minha poesia além dos lábios, minha poesia nos livros
como flores, que não sei se o tempo despetalará...

A do prisioneiro político de Fernando de Noronha, a que veio do
Leprosário, a que chegou da cadeia Municipal de Juiz de Fora,
a do poeta de Montevidéo, e as moças de Taubaté e Erechim,
para quem sou maior que Guilherme de Almeida e Alceu Wamosy."


A alegria destes encontros ao acaso, com almas e espíritos que
capitaram o esperanto de minha poesia , é como a de alguém que em
um pais estranho, ouve um conterrâneo falar a sua língua, recordar
a sua paisagem, identificar nas lembranças de amor os mesmos seres
e coisas.
"Musa Triste" foi meu último encontro. Hoje sei, pela revoada de
poemas que me mandou, que se trata de uma grande poetisa
portuguesa.
Mas persiste em se esconder no pseudônimo.
Não posso dilatar os limites desta crônica. Vou citar entretanto um
dos seus poemas. Trata-se de uma resposta ao poemeto "Sobre a
Alegria" que se encontra no meu livro "AMO ! ":



SOBRE A ALEGRIA
(Maria Helena)

( Deliciosa ironia!
Acaso alguma vez também já te espantaste
quando triste?

Pois bem, minha alegria
é às vezes uma exótica maneira
de ser triste!

E o poemeto de "Musa Triste que acompanhou, com outros,
a sua carta.

Irmão que vives para além do mar
afastado de mim por tantos nós;
que tens na alma a alma do luar
e nas veias o sangue dos cipós;
irmão que segue de olhos deslumbrados
e não vês rosas sem poder colhe-las,
e trazes nos cabelos desmanchados
a carícia noturna das estrelas;
tu, que tens os sentidos bem despertos
e uma chama a pulsar no coração
e enches todo o silêncio dos desertos
com o grito escaldante do sertão;
tu, que te levas por caminhos sábios
e que não andas pelo mundo à toa
e mataste a secura de teus lábios
beijando os lábios frescos da garoa;
tu, que não te naufragas em cansaços
nem receias surpresas na viagem
e tens no ritmo aéreo dos teu passos
a musical cadência da folhagem;
tu, que sonhas à margem dos escombros
e dos loucos vazios de ideal
e que apenas suportas nos teus ombros
o peso da loucura tropical,
irmão: se mesmo quando a dor te assiste
abres na boca o riso de uma aurora,
já que eu só sei chorar quando estou triste
vem-me ensinar a rir quando se chora!



Não é uma beleza? Quando se pode, com a poesia, inspirar tais
versos, então corre-se o risco de se pensar que, realmente, está
justificado o nosso destino.



O Poeta Fala: Sobre a correspondência trocada entre ele e a poetisa
portuguesa Maria Helena, que se ocultava atrás do pseudônimo
"Musa Triste" veu dois livros: Concerto a 4 mãos (1959) e De mãos
dadas (1961).

A PRIMEIRA CARTA

"Musa Triste" se servia de meus versos para inspirar-se tomando-os,
às vezes, como motes, e cada um dos seus trabalhos era uma espécie
de resposta ou glosa, aos meus poemas. Na sua primeira remessa ela
respondia a "Ideal de amor", "Sobre a Alegria" e "Eu te queria tão
diferente", poesia do livro "AMO !"
Agradecendo-lhe o interesse pela minha obra, mandei-lhe exemplares
de outros livros. Ela escreveu-me então a sua primeira carta. Aqui a
transcrevo para que os leitores acompanhem mais um capítulo da
história:


Lisboa, 28/12/1955

J.G de Araújo Jorge.

A sua carta chegou quando eu há muito julgava os meus poemas
dormindo um sono de eternidade em qualquer cesto de papéis... E
tinha pena, acredita? Se os que voam à mesma altura ( embora sejam
diversas as dimensões das asas) se não encontram, como suportar a
imposição duma Vida a extravasar de apelos sem resposta e de acenos
desencontrados? Os seus versos tinham-me falado alto num mundo
de imposto silencio e de harpas irremediavelmente submersas,
e o quase nada que ainda me restava de intacto, veio à tona e rimou.
Nem sei depois o que me levou a mandar-lhe aqueles mal alinhavados
versos. Talvez o intenso desejo de não viver sozinha num pais que os
outros chamam Loucura e nós, Sonho...
Talvez o desejo intenso de conhecer a opinião de "alguém" que não
sabe quem sou. A Vida e os homens e as injustiças e as renúncias e as
incompreenções tornaram-me desconfiada até à descrença. A tudo
quanto me tem dito e sobre mim tem escrito, acrescento sempre a
dolorosa parcela da dúvida: até que ponto leva a gentileza de uns e
a pouca sinceridade de outros? A Verdade. A Verdade integral,
despida das roupagens da simpatia pessoal ou da contemporização,
aonde está ? Por motivos muito íntimos, convenci-me até ao absurdo
da minha incapacidade intelectual. Hoje, já liberta do ergástulo,
ressinto-me na raiz da sujeição das folhas. E não creio que isto seja
uma atitude literária. Infelizmente para mim é tão verdadeira como
a verdade da luz. Quando acabo de escrever - quase normal a
temperatura elevada no meu criador - fico-me a olhar sem saber o
que ele vale ou o que não vale. Porque a desconfiança se apossou
de mim, não consigo fazer uma autocrítica. E até encontrar alguém
que me esclareça, é o sofrimento da incerteza, a luta entre a fé e a
desesperança, o ímpeto de continuar a viagem e o medo de ultrapassar
a curva da estrada... Foi por isto que lhe mandei os meus versos. Não
me conhece, não sabe o meu nome, não tem para comigo obrigações
de louvar ou de amabilidade: pode ser sincero até à dureza sem temer
as conseqüências da ousadia. E como V. tem as janelas abertas e eu
desejo saber a sua opinião, mando-lhe mais alguns versos. Não se
admire de encontrar no mesmo rosto olhos cheios de lágrimas e de
êxtases e, por vezes, duma inexplicável fé. Não sou volúvel, sou
permeável ao deslumbramento do mistério esclarecido na flor aberta
e do enigma fechado no silêncio das raízes. Compreende? Houve há
dias um crítico que, referindo-se ao meu último livro, me definiu com
uma verdade pasmosa: "O grande drama de "X" consiste no fundo
antagonismo que se verifica entre a sua posição irremediável de cristã
e a sua natureza também irremediavelmente pagã". E desta luta sem
vitórias absolutas nem derrotas definitivas, nasce, de fato, o grande
desencontro dos meus passos. De alma vivida num amálgama de
sentimentos opostos, não consigo libertar-me nem do sonho das asas
nem da realidade do chão. E quando o que em mim resta de essência
divina me afirma que "non sum dignus" logo a minha humanidade
exige mais calar ao Sol, e a maré mais alta e mais vermelho, o sangue.
Já vê que no meio deste caos, não é difícil perder o equilíbrio.
Se não achar esta conversa "transoceânica" aborrecida para si,
mande-me os seus versos. Lembro-me de que um dia escrevi um poema
que principiava assim:
"Quando alguém me diz versos, faz luar..."
E se V. soubesse até que infinito vai a minha noite sem Lua!
Quer-me parecer que usei e abusei da sua paciência e sobre tudo da
deselegância de me tornar sujeito de tão monótona oração. Perdoe.
Há quem rtal tentação da morfina, outros, ao entusiasmo do football
e alguns à certeza reconfortante dum cheque com cobertura: eu sufoco
dentro da solidão que me limita. Taras congênitas, como vê...