

O POETA FALA II: ( DUAS PALAVRAS Prefácio da 4a edição ) Este foi o meu segundo livro publicado. O primeiro foi "Meu Céu Interior", coletânea de poemas, alguns escritos quando ainda era aluno do Colégio Pedro II. "Bazar de Ritmos" veio logo a seguir, lançado pelo "Boletim de Ariel", e composto pelos Irmãos Pongetti. Lembro-me que na ocasião em que esse livro era editado, Vinícius de Morais tinha no Pongetti, também em composição, o seu primeiro livro: "Forma e Exegese". A publicação desta 4.1 edição, vem provar que este "bazar" onde há "notas perdidas de violinos, pardais, pandeiros e cigarras, continua a ter freqüentadores. Livro que marca uma etapa de minha adolescência, fase de transição, época do jornal e do bar, do Amarelinho e da Lapa, da leitura dos poetas românticos e dos filósofos pessimistas, mas onde também ensaiei os primeiros passos com a minha vida mesmo, vivida ao jeito da idade, com ardências e entusiasmos de que me orgulho até hoje. Retrato antigo, um pouco "amarelada' talvez. Mas, que hei de fazer? - meu retrato. A verdade é que muitos dos poemas desse livro têm merecido a atenção da crítica e dos leitores. A revista "INTERCÂMBIO" editada há muitos anos pela Pro-Arte, movimento cultural e artístico que visa aproximar brasileiros e alemães, verteu para o idioma de Goethe dois dos poemas deste livro: O ACORDAR DA CIDADE, publicado em seu número 175, de 1955, e GÕTAS, publicado no número de dezembro de 1938. A título de curiosidade, aqui vão os dois poemas transpostos com extraordinária habilidade técnica e rítmica, para o alemão pela tradutora que se assina apenas - Tómas. ( O número de "Intercâmbio", de Janeiro de 1951 publica interessante carta de Mário de Andrade , destacando as "excelentes "transposições feitas para o alemão, pela escritora Tómas.)
TROPFEN... ( GOTAS) AN EINES BLATTES SPITZE HANGT EIN TROPFEN. UNSCHLUSSIG WACHST ER, RUND UND WINZINO KLEIN, DURCHSICHTIG, WIE KRISTALL SO REIN GLEICH EINEM KLEIEN SCHREIN FOR SONNENSTRAHLEN. PLÖTZLICH, EIN LEISER WIND BEWEGT DAS BLATT, ZITTERT ER MATT, FALLT... UND DER KLINE TROPFEN AUF LOCKERER ERDE, ER SCHWINDET, UND ES ZERBRICHT DER SCHREIN AUS KRISTALL; [UND INS ALL INS FREIE FROH DER SONNENSTRAHL ZIEHT... ENTELIEHT... .......................................................... EIN ANDERES TROPIPCHEN KENN ICIH DANEBEN. - DAS LEBEN... Gotas Na ponta de uma folha há uma gota indecisa, vai crescendo, redonda, pequenina, límpida e cristalina como o esquife de um raio de luz... De repente a aragem tênue que passou tremulou, caiu... E a gota pequenina sobre a terra fofa desapareceu, e o esquife de cristal partiu-se, e pelo espaço livre, o raio de luz ressuscitou... fugiu... ................................. Eu conheço outra gota parecida: - a vida...
DAS ERWACHEN DER STADT!...(O ACORDAR DA CIDADE!..)
DAS MORGENROT BRACH AN WIE MIT HURRAH-GESCHREI... UND IN DES HORIZONTES NACHTLICHDUNKLENE SCHATTENRINGEN SCHLUG DANN DER JUNGE TAG DIE ANGFN AUF. DIE SONNE SCHRIE MIT TAUSEND SCHARPEN STRAHLEN UND SCHRECKTE DIE BETRUNKENEN, LIDERLICHEN STERNE, DIE NOCH IM BLAU VERLOREN,UNSTET IRRTEN... DIE BERGESKETTEN SCHÖPFTEN LUFT UND MIT GEFÜLLTEN LUNGEN UND GESPANNTER BRUST ZERSPRENGTEN SIE MIT DER WOLKEN SCHLEIER DIE ERDE LACHELTE VOR GLÜCK - UND PUTZTE DIE WEISSEN ZAHNE IHRES ENDLOS LANGEN STRANDES MIT FRISCHEM SCHAUM UND ZAHNPUTZSTEINEN AUS DEN WELLEN... UND SCHLIESSLICH SCHÜTTETE DER TAG VOLLKOMMEN NACKT AM FERNEN HORIZONT, DEN SONNENEIMER, VOLLGEFÜLLT MIT LICHT HINUNTER AUF DIE ERDE, UND ERWECKTE DIE STADT MIT IHREM ÜBEREIFER UND GESCHREI. DIE STADT SCHLUG IHRE AUGEN AUF AUS STAHLGARDINEN UND GARNTE MIT DEM PFEIFEN DER FABRIKEN IN DIE WEITE DANN RECKTE SIE SICH, UND STRECKTE SIE SICK UND HOB DIE LANGEN WOLKENKRATZERARME IN DIE HÖH!... O ACORDAR DA CIDADE!... A aurora despontou berrante como um hurra ! Nas olheiras noturnas do horizonte o dia abriu os olhos... E o sol gritou mil raios estridentes e assustou as estrelas boêmias e embriagadas que ainda ficavam pelo azul perdidas
.As montanhas respiram, e enchendo os pulmões arrebentaram nos peitos fortes as vestes das nuvens A terra sorriu feliz - e a dentadura branca das areias das suas praias sem fim foi lavar com a espuma fresca e dentifrícia das ondas Enfim, completamente nu sobre o horizonte, o dia jogou o balde do sol cheio de luz sobre a terra, e acordou a alma da cidade em suas algazarras e escarcéus... E a cidade abriu as pálpebras das cortinas de aço, bocejou com o apito das fábricas no espaço - se espreguiçou - e então se levantou erguendo os braços longos dos arranha-céus!...
Aliás, neste livro onde se encontram alguns poemas (que considero inteiramente superados no seu duplo aspecto - formal e essencial - de acordo com a minha experiência estética e o meu conceito atual de poesia) - há uns poucos, ainda hoje de minha preferência: "Filosofando" , "Gotas", "Tuas mãos", "Sonhadores", "Se", "Quando", e alguns mais, que considero momentos felizes da minha criação. Não sei se os leitores pensarão comigo, (e, nem sempre o pensamento do autor e dos leitores coincide) mas se tivesse que escolher poemas par uma seleção, estes seriam incluídos. Aqui está, pois, O"BAZAR" com a sua festa de emoções. Que esta nova edição amplie os limites de sua mensagem - e que suas palavras - aquelas sem idade - continuem a cantar e encontrem antenas e ressonâncias.
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